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» » » » » » Babadook: Trazendo o bom terror psicológico de volta


Steven L. Andrade 2.6.15


Nos últimos anos, tem sido difícil encontrar um bom filme de terror para assistir. Dentre Annabelle e o remake de Poltergeist (um dos clássicos do gênero), são poucos os que se salvam dos já obvios 'jump scares' e sustos que podem ser facilmente antecipados pela trilha sonora. Babadook me fez sentir aquilo que só filmes como O Iluminado conseguem fazer: realizar o horror gradualmente, de forma agonizante, apenas utilizando a atmosfera e o comportamento dos personagens. Esqueça aqueles efeitos especiais apelativos, sangue jorrando ou qualquer tipo de violência, Babadook consegue perturbar o espectador usando apenas o lado psicológico, coisa que há muito tempo não vejo em um bom filme de terror.


If it's in a word or it's in a look, you can't get rid of the Babadook

Babadook é um terror australiano dirigido pela estreante em longas Jennifer Kent, e conta a história de Amelia (Essie Davis), uma mãe atormentada pela morte do marido, que aconteceu devido a um um acidente de carro enquanto o mesmo a levava para dar a luz ao seu primeiro filho, Samuel (Noah Wiseman), que é um garoto díficil de lidar. Samuel anda com medo de monstros que se escondem em armários e embaixo da cama, e corre todas as noites para o quarto de sua mãe, onde a mesma lhe conta histórias para dormir.


Em uma dessas noites, Amelia pede para que seu filho escolha um dos livros infantis da plateleira, então, Samuel escolhe um misterioso livro chamado "The Babadook", cuja sua exitência era desconhecida até por sua mãe. O livro é contado em rimas, e traz uma criatura/monstro conhecida como Sr. Babadook, que atormenta aqueles que permitirem sua entrada.



Após sua mãe ler esse misterioso e perturbador livro, Samuel passa a concentrar seu medo no Babadook. Inicialmente, Amelia não dá muita atenção pra isso, mas com o passar do tempo, ela acaba notando uma estranha presença em sua casa.



Tecnicamente falando, Babadook é um grande filme! Além da maravilhosa atuação dos protagonistas, a fotografia soturna, formada por uma paleta de cores frias, é impecável, e faz o espectador imergir na atmosfera opressora e melancólica que a diretora fez questão de deixar bem aplicada. A trilha sonora é discreta e, diferente de muitos filmes, não causa sustinhos desnecessários, mas é suficiente para nos deixar apreensivos e nos levar da tristeza a insanidade das cenas.

A partir desse ponto, pretendo me aprofundar mais na história do filme, e obviamente, terá spoilers, então se você ainda não assistiu, não perca tempo! Vai lá, assiste (sem preguiça, porque o filme está disponível no Netflix Brasil) e depois volta aqui pra ler o resto do texto pra entender toda a trama e seu ar interpretativo. 


AQUI COMEÇAM OS SPOILERS

Babadook é um pouco complicado de se entender apenas sendo assistido, então é muito provável que você só enxergue a sua genialidade após ler esse texto. Além das várias homenagens ao expressionismo alemão de 1920, o filme retrata a depressão de uma forma fantástica.

I'll always find a dark place to hide, a little something extra buried inside

Desde o começo, vemos Amelia como uma mulher cansada e triste, mostrando que, apesar de sete anos já terem se passado desde a morte de seu marido, ela ainda não se recuperou do luto. Antes mesmo dela ler "The Babadook" pela primeira vez, ela já tinha o olhar triste, vazio e perdido. "Como assim Steven, tô meio confuso". O Babadook nada mais é que a depressão de Amelia tomando conta da sua vida. Se você prestar atenção, perceberá que o Samuel começa a ver o Babadook a partir do momento que Amelia começa a perder o controle. Isso é sinal de que o seu problema está afetando o garoto, que fica cada vez mais difícil de ser controlado.

Durante todo o filme, vemos as coisas pelo ponto de vista depressivo de Amelia. Muitas coisas indicam isso, como na cena do aniversário, onde Amelia está sentada, enquanto todas as outras mães estão de pé. O ângulo da câmera mostra como ela se sente inferior as outras. Sem contar, que todos os adultos da festa estão usando roupa preta, algo bem estranho em uma festa infantil. Isso pode ser interpretado como a forma que Amelia vê as coisas: sem vida e sem cor. Algo que remete também as cores sombrias do filme.

Ainda na festa, o seguinte diálogo acontece:

- Claire me disse que você é escritora.
- Na verdade, não mais.
- Que tipo de coisas você escrevia?
- Alguns artigos para revistas. Coisas de criança.

Logo, um livro infantil aparecer na plateleira de sua casa não é algo tão incomum assim.

You start to change when I get in, The Babadook growing right under your skin.

Amelia começa a rejeitar seu próprio filho, algo que podemos perceber claramente na cena onde os dois estão deitados. Samuel está dormindo abraçado na mãe, que logo se afasta do garoto, como se o mesmo a incomodasse.

Isso acontece porque, de certa forma, Amelia acredita que Samuel é culpado pela morte de seu marido. Também é possível notar que, quanto mais o aniversário do garoto se aproxima (que também é o dia em que seu marido morreu), mais as coisas pioram.

O que acontece é que Amelia, como qualquer mãe normal, não suporta a ideia de machucar seu filho, e tenta de tudo para manter isso longe da sua mente. Então, ela pega toda a sua agressividade e hostilidade, e os projeta no Babadook.

A cena das baratas saindo do buraco sob o papel de parede da cozinha, é apenas mais uma metáfora do mal que está começando a crescer dentro da viúva.


Quando o Babadook possui Amelia, ela é tomada pelo ódio que sente pelo filho e tenta matá-lo. Samuel então passa a usar as armas que ele mesmo criou para se defender da criatura, contra sua mãe, que desde o início era o Babadook.


No fim, Amelia doma a criatura, a alimenta todos os dias e a mantém no porão. Ou seja, ela aceita seu lado ruim e cuida diariamente para que o monstro não tome o controle novamente.

AQUI TERMINAM OS SPOILERS

Enfim, Babadook foi o melhor filme de terror que eu vi em muito tempo. Além de fugir dos clichês do genêro, ele vai muito além do entretenimento. Dito isso, me atrevo a dizer que Babadook é uma verdadeira obra prima, e um dos filmes mais fantásticos que já assisti.

Ficha Técnica

Titulo original: The Babadook
Ano: 2014
Direção: Jennifer Kent

Elenco: Essie Davis, Noah Wiseman, Benjamin Winspear, Daniel Henshall, Hayley McElhinney e Carmel Johnson.

Créditos

Texto: Steven L. Andrade
Revisão: Juninho Lima
Imagens: Steven L. Andrade

O artigo representa as opiniões do autor do texto,e  não a opinião do Co-op Geeks.

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