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Bruna Mattos 27.8.15


AVISO: Esse texto pode conter spoilers da trama de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain. Prossiga por sua conta e risco.

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain não se passa em 1984 à toa. Em entrevista ao site japa 4Gamer, Hideo Kojima revelou porque escolheu esse ano para que a maior parte da história acontecesse: "Desde Metal Gear Solid 3 eu quero fazer um jogo sobre a história dessa era. Além disso, 1984 é o título de um livro de George Orwell e MGSV aborda temas Orwellianos".

"Orelliano" é tudo aquilo que se refere ao universo criado pelo autor, especialmente ao mundo distópico de 1984. Owrell escreveu o livro em 1948, criando uma história como uma espécie de previsão assombrosa do que aconteceria com uma nação dominada por um governo totalitário. Muitos dos neologismos e conceitos criados por Owrell em 1984 se tornaram referências, como "Grande Irmão", "duplipensar" e "Novafala".

A obra do autor britânico acompanha a vida de Winston Smith, um homem que vive na fictícia Oceania, uma nação controlada por uma entidade centralizadora de poder chamada de Partido. O grande ícone e herói de Oceania é o Grande Irmão, uma figura fictícia que é usada como o governante e o grande "fiscalizador da vida alheia". Através de um dispositivo chamado teletela, o povo de Oceania é constantemente observado por uma espécie de televisão que transmite para os dois lados, vigiando as pessoas dentro de suas casas e no ambiente de trabalho, além de divulgar mensagens de propaganda do Partido com o rosto do Grande Irmão estampado na tela (daí o nome do reality show, Big Brother). Cartazes com a figura do Grande Irmão também são espalhados nas cidades com a mensagem "O Grande Irmão observa você". Toda essa fiscalização tem um único objetivo, controlar o "crimepensar", o que simplesmente significa elaborar qualquer pensamento contra o próprio Partido ou, ainda, desrespeitar qualquer uma das regras sociais impostas, mesmo dentro da sua própria casa.

Cena do filme "1984". Ao fundo, uma teletela e a imagem do Grande Irmão.
Além da vigilância constante das teletelas, a maior forma de domínio usada pelo Partido se dá através da linguagem. Em 1984, um novo idioma está sendo implementado na Oceania, a Novafala (ou Novalíngua). A Novafala é um idioma muito simples, que muitas vezes une duas ou mais palavras e bane várias do vocabulário. O objetivo? Tornar o pensamento igualmente simples - enquanto palavras são banidas, seus significados também acabam desaparecendo com o tempo, reduzindo muito o escopo e nuances de pensamento e de discurso. O apogeu da Novafala chegaria quando toda e qualquer forma de crimepensar estivesse banida, ou seja, nenhum indivíduo seria sequer capaz de elaborar e expressar qualquer ideia contra o Partido.

Em 1984 há ainda o controle da linguagem escrita. Diários pessoais são terminantemente proibidos (ninguém pode fazer registos de NADA, somente o Partido) e notícias e documentos oficiais são constantemente editados pelo Ministério da Verdade, onde Winston trabalha. "Quem controla o passado, controla o futuro. Quem contra o presente, controla o passado". Ao editar registros, o Partido consegue simplesmente mudar a história de Oceania, distorcer a realidade e, até mesmo, fazer com que a história de algumas pessoas sejam alteradas, chegando a extremo de indivíduos que se tornam "despessoas" e "não existem mais". O livro de Orwell faz com que o leitor questione: o que é verdade e quais são as identidades de cada uma das pessoas de Oceania se o Partido pode determinar por si só até mesmo quem são os indivíduos e se eles existem?

Metal Gear parece já ter flertado com conceitos Owrellianos antes, especialmente em Metal Gear Solid 2 e Metal Gear Solid 4, quando a manipulação e o controle absoluto de informações seriam o alicerce dos Patriotas e das inteligências artificiais criadas por eles. Impossível não fazer comparações entre o Partido e os Patriotas e entre Zero e o Grande Irmão. Aparentemente, tudo isso pode ter se iniciado na história de Metal Gear com ideais de controle da linguagem ou, ainda, de unificação desta.

O trailer de Metal Gear Solid V lançado durante a E3 mostrou que as inspirações de Kojima em torno de 1984 estão diretamente relacionadas à questão da linguagem. Skull Face, o vilão do jogo, é provavelmente o símbolo do impacto do controle da linguagem na perda de contato do indivíduo com suas origens.


"Eu nasci em uma pequena vila. Eu era apenas uma criança quando fomos atacados por soldados. Soldados estrangeiros. Despedaçado por meus inimigos, fui forçado a falar a língua deles. A cada posto, meu comandantes mudavam, junto com as palavras que eles me faziam falar. A cada uma dessas mudanças, eu mudei também. Meus pensamentos, personalidade, como eu via certo e errado. Palavras podem matar". - Skull Face.

"Quando era apenas um menino, ele perdeu sua língua mãe, a base para qualquer criança em desenvolvimento. Seu país, sua família, sua face, sua identidade. Tudo foi tirado dele". - Revolver Ocelot.

Skull Face: um fantasma sem passado.
Skull Face é constantemente comparado a um fantasma. É um homem sem rosto e a sua falta de identidade é um reflexo dos traumas e constantes mudanças impostas pela fala e, consequentemente, pelas conexões culturais de cada um de seus captores. Como definir quem é Skull Face depois de tudo isso? Quem era Skull Face antes de ser totalmente despido das conexões com sua nação, cultura e idioma?

Enquanto isso, Zero, o líder dos Patriotas, tenta tornar real a sua interpretação do mundo idealizado por The Boss através do controle da linguagem:

"Este mundo será um só. Eu encontrei uma maneira. Raças, afiliações tribais, fronteiras, até mesmo as nossas faces serão irrelevantes. O mundo que The Boss idealizou será realidade e tornará a humanidade completa novamente". - Major Zero

O discurso do principal nome dos Patriotas parece muito bonito e até lembra um pouco "Imagine", do John Lenon, mas visualize o extremo desse conceito. Um mundo sem raças, tribos, afiliações, sem rostos e indivíduos sem conexão com algo próprio ou apenas com algo centralizado e único... não seria um mundo de Skull Faces? Qual a diferença deste cenário para o universo utópico (e pavoroso) de 1984? A única forma de tornar o mundo "um só" é passando por cima de todos os diferenciais de cada povo, de cada nação, de cada língua, construídos até então. A única forma de alcançar esse ideal é através do controle. Desculpe se "Imagine" não parece mais tão legal pra você :P

"Então o Major [Zero] idealizou um sistema que usa informação: palavras para controlar o subconsciente" - Skull Face.

Essa frase de Skull Face deixa claro que faz parte dos planos de Zero implementar algo extremamente semelhante à Novafala de 1984 para controlar não somente a informação, mas o pensamento das pessoas. Quanto mais simples a linguagem e a capacidade de expressar a visão do mundo, mas simples é o pensamento. Quanto mais simples ou mais uniformes são os pensamentos dos indivíduos, mas fáceis de controlar e manipular estes serão.

Os Patriotas e Zero (ao centro).
Os ideais de Zero esbarram em um outro conceito Owrelliano, o duplipensar:

"Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar". - 1984

Zero parece visualizar um "mundo ideal", um mundo livre de uma série de preceitos através do controle. Essas duas ideias antagônicas também eram usadas pelo Partido em 1984. Liberdade através do controle, igualidade através da anulação de identidades. Paz através da guerra é um conceito muito forte quando os Patriotas chegam ao ápice do poder, em Metal Gear Solid 4. A guerra é um dos principais alicerces do Partido e também dos Patriotas. Com os conflitos constantes, os indivíduos se tornam fracos o suficiente para serem dependentes de seus líderes, mas não infelizes ao ponto de se rebelarem. Assim, a guerra também se torna uma forma importante de controle dos indivíduos por reforçar os elos com sua própria nação e a distância de nações inimigas (nacionalismo, patriotismo, preconceito e xenofobia), além de ser uma ferramenta de domínio sobre povos diferentes.

Nesse contexto, enquanto a linguagem constrói identidades e pensamentos, também é capaz de destruí-las ("palavras podem matar"). Enquanto Zero quer usar a linguagem para controlar informações e unificar o mundo, Skull Face a enxerga como uma arma para destruir indivíduos: 

"Na visão dele, o maior parasita simbiótico que existe não é microbiano. É linguístico. Liberte o mundo, não arrancando suas vidas mas sim, suas línguas". - Revolver Ocelot

"Sem um idioma comum, o mundo será livre". - Skull Face.

Quiet: uma sniper privada de suas palavras.
Se Skull Face quer destruir qualquer forma de linguagem falada/escrita, ainda é um mistério. Porém, este seria um ideal muito próximo dos planos de Zero. Um mundo com uma única língua não seria muito diferente de um mundo com nenhuma. O principal alvo de Skull Face pode ser, então, o inglês, o atual idioma comum e que estava em expansão durante o período da Guerra Fria, quando os EUA se estabeleceu finalmente como a grande potencia mundial (no contexto de Metal Gear, apoiado nos Patriotas).

Nessa guerra de gigantes com conceitos deturpados sobre o mundo, a visão idealizada de The Boss se torna cada vez menos palpável: "deixar o mundo como está". Livre de domínios ou dominantes, uma mistura de diferentes e iguais, que não buscam uma igualdade imaginária calcada na ausência de diferenças, mas no convívio harmonioso. 

Big Boss está no centro do embate entre Zero e Skull Face. A pergunta que fica é: qual lado ele irá escolher, já que ainda não entendeu qual é a visão de sua mentora sobre o mundo?

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain chega em primeiro de Setembro, mas o hype já está entre nós faz muito tempo.

Créditos

Texto e Imagens: Bruna Mattos
Revisão: Juninho Lima

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