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» » » » » » » » » As influências de A Bruxa de Blair para o cinema


Vitor Oliveira 27.4.16


Com nada mais que uma câmera na mão, um baixo orçamento e um plot não necessariamente forte, diretores conseguiram – e conseguem – criar obras cinematográficas dos mais diversos gêneros. Estamos falando dos found-footage, e, se você curte esse tipo de filme ou apenas está curioso para saber do que se trata, não deixe de ler este artigo.

Se olharmos direitinho, vamos perceber a enxurrada de filmes em found-footage que são lançados todo ano. A maioria sequer faz sucesso ou consegue atingir um público razoável – o que prova que o subgênero vem enfrentando um período de decadência. Mas, para a haver decadência deve haver, primeiramente, a ascensão, não é?

Tudo começou com o controverso Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust, 1980), considerado por muitos um dos filmes mais polêmicos da história! O longa se situa na década de 80, quando uma expedição à Amazônia é organizada por um professor que busca recuperar algumas filmagens de um documentário gravado anteriormente por um grupo. Seu objetivo é alcançado, então nem preciso dizer o que é que ele encontrou nessas filmagens, né? Holocausto Canibal conta com cenas de mortes de humanos e animais – sim, os bichinhos foram realmente sacrificados –, estupro e outras atrocidades, e, por conta disso, foi banido de vários países, se tornando um filme underground de sucesso na época.

O subgênero, então, passou um bom tempo sem ser explorado – cerca de 20 anos – até que no ano de 1999 foi lançado o filme A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project), que não foi o primeiro found-footage, mas sim o ápice desse tipo de filme. Revolucionário não só para o terror, como para diversos outros gêneros, A Bruxa de Blair contou com um baixíssimo orçamento – 50 mil dólares, em média – e atingiu uma bilheteria de simplesmente 248 milhões de dólares, 413,3% a mais do que gastou, se tornando um dos filmes mais rentáveis da história.

A Bruxa de Blair, porém, difere bastante do seu antecessor de gênero Holocausto Canibal por vender sua premissa de maneira diferente, chocando o público não por meio do bizarro, mas sim por meio do medo. O enredo do filme é bastante simples: um grupo de estudantes de cinema decide produzir um documentário sobre uma lenda local, a lenda da bruxa de Blair, porém, para tal, precisariam passar alguns dais e noites na floresta de Burkittsville. A investigação aparentemente inofensiva acaba se tornando o maior pesadelo do grupo e resulta no desaparecimento dos três. Um ano depois, as filmagens são encontradas e revelam que eles acabaram descobrindo que o que procuravam era real.

Com uma narrativa jamais vista, o filme consegue captar a essência do medo sem sequer mostrar a imagem da tão falada “Bruxa de Blair”. A tensão e o amadorismo que os atores conseguem passar são pontos cruciais e podem explicar o seu sucesso. Em umas das cenas, a personagem Heather faz uma autogravação onde deixa uma mensagem para os seus pais – este monólogo pode ser considerado uma das cenas mais icônicas de todo o cinema de terror.

Como cita H.P. Lovecraft: “A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido” e A Bruxa de Blair conseguiu ativar qualquer resquício de medo e curiosidade nos seus espectadores, se aproveitando de uma época onde a internet ainda estava em ascensão e todo marketing ali criado surtiria efeitos bem abrangentes.

A realidade é que A Bruxa de Blair, após o seu sucesso, abriu espaço para que outros diretores percebessem o quão rentável poderia ser lançar um filme nesse estilo. E para a alegria geral, os found-footage foram explorados nas mais diversificadas temáticas. Confira uma das cenas mais icônicas do filme:



Terror, alienígenas e Milla Jovovich



Alguns filmes tentam reproduzir a essência que A Bruxa de Blair criou, como é o caso de Cloverfield – Monstro (2008). Nele, um grupo de amigos sempre um grupo de amigos curte uma festa quando um tremor surpreende a todos, mal sabiam eles que, naquele momento, uma invasão alienígena acontecia em Nova York. Cloverfield apresenta uma boa construção, algumas cenas icônicas como a cabeça da Estátua da Liberdade sendo destruída, e foi filmado de forma completamente amadora – como dizem alguns críticos: “é como se fosse um crossover entre A Bruxa de Blair e Godzilla”.

Outro filme que utiliza tática parecida é Distrito 9 (2009), este, porém, pendendo mais para o lado dos documentários. Pseudodocumentários, na verdade, uma vez que utiliza recursos cinematográficos para criar efeito de um documentário comum, contudo, narrando um fato fictício. Em Distrito 9, os alienígenas que, por necessidade, vieram à Terra, acabam sendo oprimidos pela raça humana. Nesse meio tempo, Wikus, o protagonista do filme, recebe acidentalmente DNA alienígena e passa a sofrer mutações, ficando no fogo cruzado na luta entre humanos e extraterrestres. Além da bela produção de Neill Blomkamp (Elysium, Chappie), o filme conta com uma bela crítica à sociedade moderna. O fato de ter sido rodado como um found-footage torna a crítica e a premissa do filme ainda mais realistas.

Os alienígenas também dão as caras em Contatos de 4º Grau (2010), estrelado por ninguém menos que Milla Jovovich – já consagrada no cinema – e mesclando elementos de A Bruxa de Blair com uma pitadinha de Distrito 9. Não, o enredo de Contatos de 4º Grau não tem nada a ver com o de Distrito 9, mas a essência de documentário deste pode ser considerada também.

Milla Jovovich, aqui, interpreta a doutora Abigail Tyler e sua experiência com os quatro tipos de contatos alienígenas, incluindo abdução. No início do filme, Milla aparece em um depoimento não como personagem, mas como atriz, onde afirma a veracidade dos fatos e de algumas cenas realmente filmadas pela Abigail verdadeira, tornando o filme ainda mais realista. Os eventos, ocorridos supostamente na cidade de Nome, no Alasca, mostram sessões de hipnoterapia (hipnose) gravadas pela Abigail, psicóloga que suspeita que alguns dos seus pacientes – que sempre descrevem a figura de uma estranha coruja – tenham sido vítimas de experiências alienígenas. No desenrolar do filme algumas reviravoltas e momentos assustadores são mostrados, e, contribuindo com isso, houve também um forte marketing viral, incluindo criação de arquivos falsos sobre desaparecimentos na internet, falso site da psicóloga Abigail Tyler e, supostamente, falsas gravações de hipnoterapia. Decepcionante, não é? Mas tudo isso influenciou para que o filme captasse a essência da realidade e do medo que A Bruxa de Blair explorou no seu lançamento.

Vírus, infecções e Romero



Não demorou para que o vasto universo dos zumbis aderisse ao subgênero quase amador. E, olha só, não é que esse amadorismo mais o elemento trash dos filmes de zumbis e infecções combinam?

Romero, nosso eterno pai dos zumbis no cinema, conseguiu juntar esses dois elementos citados e lançar um filme, digamos que... incompreendido. Isso porque Diário dos Mortos não teve uma boa recepção nem por parte da crítica especializada e nem por parte de muitos espectadores – o que não tira a genialidade do filme que, além de ser um terror equilibrado, utiliza a metalinguagem para passar uma mensagem em forma de metáfora calma, não vai ter spoiler.

Outro filme que, porventura, deu origem a uma das melhores franquias do terror foud-footage foi REC (2007). O longa que narra a dramática matéria da repórter Angela Vidal, interrompida – ou não – por uma misteriosa contaminação no prédio onde as gravações estavam acontecendo. Os infectados, que passavam a agir agressivamente, causaram a interdição do local, transformando a vida de qualquer sobrevivente em um conto de terror. Cheio de ação, jumpscares e muito terror, REC rendeu uma continuação à sua altura, REC² - Possuídos, se não até melhor que o primeiro filme...

Possessões, fantasmas e a decadência do gênero



Não dá pra fazer um artigo sobre found-footage sem citar um dos filmes mais famosos: Atividade Paranormal. Só o primeiro filme conseguiu bater o lucro e a rentabilidade de A Bruxa de Blair – em outras palavras, seria como Lady Gaga vendendo mais discos que a Madonna. O segredo, assim como em A Bruxa de Blair, está na sua fórmula simplória que segue direitinho os passos daquele precursor do subgênero: pouca ação, enredo simples, elenco desconhecido e o mais importante, o medo do invisível.

Quem acompanhou Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2007) e sua continuação, Atividade Paranormal 2 (idem, 2010) percebe claramente que os elementos de terror utilizados no filme são totalmente psicológicos: nada de entidades vivas como em Invocação do Mal (2013), apenas efeitos de câmera e sonoros. O primeiro filme conseguiu, com isso, repetir a façanha que A Bruxa de Blair conseguira 10 anos antes – e superou.

Mas nem tudo são flores... Como citado no início do artigo, cada vez mais o cinema cospe filmes de found-footage na tentativa frustrada de cativar o espectador com algo criado de forma barata e desorganizada. São tantos filmes que, ao longo do tempo, a essência de A Bruxa de Blair foi se perdendo e o subgênero sendo banalizado, estando hoje cada vez mais decadente e menos popular. 

Alguns filmes abandonaram o gênero, como é o caso de A Bruxa de Blair, que lançou uma continuação em formato tradicional no ano de 2000, ou REC, cujo terceiro filme da franquia apresenta um prequel que foge totalmente da promessa da saga...

A verdade é que não dá para culpar ninguém em específico por essa decadência, mas depois de Atividade Paranormal provar – mais uma vez – que uma simples produção de falso documentário pode lucrar mais que um blockbustter, mais e mais produtoras se envolveram em filmes assim, sem se preocupar com a pessoa mais importante: o espectador.

Créditos

Texto: Maurício Vitor

O artigo representa as ideias e opiniões do autor do texto, e não do site Co-op Geeks

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