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» » » » Por que os filmes de terror não são mais como antigamente?


Marcelo Henrique 5.4.16


Eis uma pergunta que a maioria das pessoas se faz incansavelmente a cada lançamento que é anunciado pela não mais aterrorizante indústria do horror.

Em meio a tantos trailers e notícias que invadem a linha do tempo de nossas redes sociais, a única certeza que fica é a de que os filmes liberados nos últimos anos não chegam nem perto das grandes apostas produzidas pelas décadas de 70 e 80 – e olhem que naquela época os recursos eram bem mais escassos que os de hoje em dia. Mas, por que isso acontece? Seria devido ao rumo seguido por esta atual geração de cineastas ou será que existe um pouquinho de “culpa” nossa no cartório?

É isso que tentaremos descobrir na publicação de hoje. A seguir, reunimos os principais pontos que talvez possam responder a esta pergunta tão inquietante e que deixa muita gente com uma pulga atrás da orelha. Vamos lá:

Roteiro, a alma do negócio



Existe uma razão para o ditado “o livro é melhor que o filme” fazer a cabeça de muitos leitores que preferem ler uma obra literária original a assistir sua adaptação cinematográfica, e talvez essa mesma lógica possa ser reaproveitada aqui.

Que um bom roteiro é a base indispensável para se fazer um longa-metragem de qualidade, independente do gênero, isso não se discute, mas será que em se tratando de filmes de terror o desfecho da história não seja ainda mais importante para nos conquistar? Afinal, é por meio de uma trama bem estruturada que nossa atenção é capturada, e por mais que o orçamento de uma produção ultrapasse os muitos zeros depois da vírgula, se a história for ruim, incompleta ou mal redigida, dificilmente rolará química com o telespectador.

O roteirista trabalha como o “escritor do longa-metragem”: se ele for um Stephen King, o filme terá grandes chances de ser um sucesso imensurável (mas, se for um iniciante despreparado que prefere seguir os clichês a confiar em seus próprios instintos...).

Diretor, um verdadeiro cão guia:



Em uma orquestra, o maestro é a pessoa que irá coordenar cada movimento feito pelos demais músicos ou coristas – logo, dá para termos uma ideia do tamanho de sua responsabilidade. Se pudéssemos levar este exemplo para os curtas e longas-metragens, o diretor seria ninguém menos que o “maestro dos cinemas”, o cara que ficará encarregado de analisar cada pequeno detalhe que a maioria de nós, leigos, costuma deixar passar batido.

Como mestre da sua área, é dever de um diretor não apenas coordenar a atuação do elenco e de toda a equipe de produção, mas também dar enfoque aos principais pontos do roteiro e retirar aqueles considerados mais banais. É durante esse complicado processo seletivo que um bom diretor pode tirar a sorte grande de dar vida a um clássico inesquecível ou cometer o deslize de dirigir o pior filme de sua carreira – seja omitindo informações importantes do script ou incluindo diversos detalhes totalmente desnecessários.

Quando assistimos a um filme, é a visão do diretor que estamos acompanhando, e não a do roteirista (a menos que ele divida as duas funções simultaneamente, é claro). Se o cara não for bom, não adianta insistir: o longa poderá ter o melhor roteiro do mundo, mas não há reza que resolva a incompetência de uma pessoa sem potencial.

Atores, mais do que meros comunicadores



Se filmes de comédia, drama e ação exigem atores que sejam capazes de encarnar muito bem seus personagens, no terror essa missão acaba se tornando uma tarefa quase impossível. Não porque nos demais gêneros a atuação é mais fácil, mas, porque não há como negar que o roteiro de um bom filme de terror exige alguém com uma boa expressão corporal capaz de suportar a grande carga emotiva de que lhe é imprescindível (e nos impressionar com o que está fazendo).

Desespero, medo, dor, aflição, insegurança, adrenalina, crueldade, sangue frio... estas são apenas algumas das muitas emoções sentidas pelos mocinhos e vilões destas pequenas e grandes produções; logo, mais do que um nome conhecido ou qualificado, é necessário que o profissional seja alguém capaz de ganhar a nossa empatia de imediato. Um bom ator é aquele que consegue deixar toda sua carreira de lado enquanto interpreta um papel, convencendo-nos de que quem está ali não é a celebridade fulano de tal, mas sim o próprio personagem, incorporado na voz, nos gestos e no corpo de seu mensageiro final.

O problema da censura e a procura por um novo público



Ah, a maldita censura, a ferramenta mais odiada por aqueles que gostam tanto de ver qualquer longa-metragem sem se preocupar com limitação de violência, linguajar inapropriado ou cenas não recomendadas para menores de idade. Mas, diferente do que muitos pensam, a censura não existe para agradar a nós, meros telespectadores sedentos por carnificina, mas sim para filtrar uma produção antes de disponibilizá-la para um público mais jovem (e que talvez não esteja tão preparado para cenas muito fortes).

É verdade que os novos filmes de terror têm sido redirecionados mais para adolescentes que para adultos, mas, você já parou para pensar que, se isso acontece na prática, talvez seja porque, no fim das contas, estes sejam os consumidores mais lucrativos? Logo, qual seria a vantagem econômica de uma produtora que libera materiais exclusivos para maiores de idade se a fonte da sua renda não está neles?

Aparentemente, pessoas mais velhas tendem a não se interessar mais por filmes de terror (não a ponto de gastarem dinheiro com uma entrada para o cinema), então, o que resta às produções é caprichar menos nas cenas assustadoras e, consequentemente, abaixar a classificação indicativa (levando consigo qualquer resquício de respeito ou dignidade).

Sangue demais nem sempre é a solução



Criatividade é, para mim, a palavra que rege um bom filme de terror (e quando falo em criatividade, incluo aqui cada um dos itens que acabamos de ver mais acima). Contudo, assim como um medicamento, é necessário saber administrar bem a sua dosagem, pois, se você o fizer em excesso, com certeza estará de cara com uma produção completamente irreal e que fugirá das expectativas de qualquer pessoa.

É isso que acontece com muitos diretores que resolvem recorrer ao antigo truque das cenas carregadas com muito sangue e corpos decepados por todo o cenário, tentando nos convencer mais por seus efeitos especiais e menos pela seleção de atores combinada ao roteiro e direção.

Aqui, a censura nem chega a ser o maior dos problemas e até ouso dizer que um pouco dela faz falta neste caso: do que adianta ultrapassar todos os limites do politicamente correto se for para nos entregar um trabalho porco, esteticamente sujo? Infelizmente, a concepção do “do quanto mais sangue, melhor” nem sempre é o melhor caminho para um bom filme de terror...

Os perigos de uma dublagem mal feita



Muitos dizem que dublagem e terror são como água e óleo: por mais que você tente misturá-los, eles jamais lhe darão uma mistura homogênea. Até certo ponto eu concordo com esta assertiva... se não tivéssemos, é claro, o exemplo de várias lendas dos cinemas que foram beneficiadas com uma dublagem tão boa quanto o áudio original.

Porém, não estamos aqui para criticar o trabalho feito pelos novos dubladores de filmes de terror (pois, diferente do que aparenta, o processo de dublagem é bastante complexo), mas sim para lembrar-lhes que, da mesma forma que existem atores ruins, também existem dubladores ruins. Por mais apto que o dublador seja, ele nem sempre será capaz capturar toda a emoção passada pela voz do ator original, um profissional que está efetivamente inserido na gravação de cada cena enquanto se divide entre recordar as falas do script e tentar parecer o mais natural possível.

Não há problema algum em preferir ver filmes no seu idioma local (seja por preguiça das legendas, seja por gosto pessoal), mas fique desde já ciente que as chances de o resultado não ser tão bom quanto o esperado são muito grandes.

Assistir filmes de terror com frequência faz você se acostumar com o gênero



Por fim, é com esta teoria que tenho defendido já há algum tempo que encerramos a publicação de hoje. Analisando não apenas os longas-metragens liberados nos últimos anos, mas também alguns clássicos de décadas atrás, cheguei à conclusão que muitas produções, inclusive as antigas, aparentaram-me ser muito mais assustadoras no passado, quando as assisti pela primeira vez. Com esta percepção em mente, fui levado a cogitar se não estaria eu já familiarizado com esse ambiente sinistro dos filmes de terror e cada vez menos surpreso com as impressionantes “novidades” que surgem no mercado cinematográfico.

Será que antigamente os filmes não eram melhores porque os assistíamos com outros olhos e perspectivas? Será que antes não criávamos tantas expectativas com os lançamentos e projetos futuros que eram anunciados? É verdade que muitos filmes atuais não chegam nem aos pés de longas que aterrorizaram muita gente há muito tempo, mas, será que não chegamos a um estado onde nada mais nos impressiona? Após tanto esperar por um longa-metragem que pudesse ser capaz de apavorar cada fio do nosso cabelo, não teríamos nos perdido em nossos desejos impossíveis e sido abandonados (para não dizer descartados) pela até então fiel indústria do horror?

Créditos

Texto: Marcelo Henrique

O artigo apresenta as ideias e opiniões do autor do texto, e não do site Co-op Geeks

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