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Marcelo Henrique 21.4.16


Nem parece verdade, mas, hoje, 21 de abril, uma significativa parcela dos admiradores da franquia “Silent Hill” comemora o grande evento que foi responsável por levar a obra-prima de Keiichiro Toyama para um novo horizonte muito além daquele coordenado pelos seus sanguinários jogos eletrônicos. Isso porque, há exatamente 10 anos, nascia o que seria uma das melhores adaptações de um clássico dos videogames lançada diretamente para as telonas dos cinemas de todo o mundo: o autointitulado “Silent Hill” (ou “Terror em Silent Hill”, para os fãs brasileiros).

Por isso, relembrando as principais informações e curiosidades que cercam essa gigante produção aniversariante, trazemos, a seguir, um apanhado com tudo o que você precisa saber sobre o primeiro filme inspirado, majoritariamente, no game original de 1999. Ah, e caso ainda não o tenha assistido ou seja novo por aqui, não se preocupe, pois este texto é livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o entendimento do artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma bem sucinta). Dito isso, podemos prosseguir?

ATENÇÃO: Essa postagem contém imagens perturbadoras e violentas, se você tiver estômago fraco ou for menos de 16 anos, esse texto não é indicado para você. Prossiga por conta e risco.



O início do terror





Não é novidade para ninguém que, em se tratando de clássicos do survival horror, “Silent Hill” se mostre uma das primeiras opções quando o assunto em pauta são jogos favoritos do público de qualquer geração. Saltando dos ainda quadriculares (e pouco realísticos) gráficos 3D de nossos televisores para uma realidade até então inédita, “Terror em Silent Hill” não demorou para se tornar o queridinho dos gamers quando fez a sua aguardada estreia em um distante 2006. Todavia, mesmo que muitos desconheçam, os projetos para um longa-metragem não nasceram assim, de uma hora para a outra, e a sua origem nos remete há pelo menos cinco anos por uma longínqua linha do tempo.



Pretendido desde que saiu do Japão e ganhou os consoles de todo o planeta no final dos anos 90, o filme que teve seu enredo inspirado no primeiro título da série (e recebeu, de brinde, elementos das outras três sequências eletrônicas lançadas entre 2001 e 2004) começou a ser planejado ainda em 2000, quando Christophe Gans, o diretor, tentou obter os direitos autorais para a primeira adaptação cinematográfica. Após tê-los adquirido e começado a escrever o roteiro em 2004 com a ajuda de Nicolas Boukhrief e Roger Avary, se aliou a “Davis Films” (a mesma produtora de “Resident Evil: O Hóspede Maldito”, de 2002) enquanto a distribuição pelos EUA e América Latina ficou ao encargo da “Sony Pictures” e da “TriStar Pictures”, sua subsidiária.


Este seria apenas o começo de uma nova era!

Terror em Silent Hill” nos poupa daquela clássica representação da família quase perfeita que abre a maioria dos filmes de terror e, logo de cara, nos introduz aos Da Silva: o trio formado por Rose (Radha Mitchell), Christopher (Sean Bean) e Sharon (Jodelle Ferland). Já em um estado avançado de sonambulismo capaz de colocar a sua própria vida em risco, a situação da filha única do casal vai de mal a pior quando, misteriosamente, seu subconsciente começa a chamar por um local totalmente desconhecido durante cada manifestação da doença. Intrigada com estes acontecimentos e impulsionada pelo desejo de encontrar uma possível cura ao distúrbio de sua filha, Rose acredita que o tal lugar pode, de fato, ser a solução ideal para sua família – e sem pensar duas vezes, deixa seu marido para trás e embarca em uma viagem de última hora rumo à imprevisível Silent Hill.

Contudo, o que ninguém poderia imaginar é que, há muitas e muitas décadas, Silent Hill deixara de ser uma cidade comum para se tornar apenas uma sombra do que fora um dia – e é claro que tudo fica ainda pior quando Sharon desaparece e Rose tenta ir atrás dela. Isolada do mapa e ainda sofrendo as consequências de um desastre que esconde todo o mistério por trás do local, não demorará para que alguns fantasmas do passado ganhem forças e tentem passar por cima de tudo que estiver em seu caminho em uma inesgotável busca por vingança. Basta a Rose, Christopher e Sharon descobrir se conseguirão escapar ilesos deste terrível pesadelo ou se se juntarão ao grupo de vítimas desta longa narrativa com tons macabros de fanatismo religioso e muita tortura psicológica.

Confira o trailer do longa legendado:


Reescrevendo a história por trás do game


Por mais que tenha tomado por base, em sua quase totalidade, o enredo do primeiro “Silent Hill” – aquele de 1999 lançado para PSOne, pela “Konami” –, a adaptação cinematográfica não teve medo de repaginar diversos elementos originais para recontar a história que já era de conhecimento dos primeiros fãs da série. A começar pela alternância do sexo dos personagens principais (no game você joga como Harry Mason, pai de Cheryl, enquanto no filme assiste à mãe de Sharon, Rose), foi dito, quando do lançamento da produção, que seu maior objetivo era focar em uma nova temática: no caso, a maternidade (tanto que os personagens masculinos, Chris da Silva e Thomas Gucci, só foram incluídos após a conclusão do roteiro, em um pedido formal feito pela produtora – e ironicamente, foram as cenas que menos agradaram à crítica).

Puppet Nurse do primeiro game e
Bubble Head Nurse, que nem deveria
ter aparecido no longa.
Modificando, ainda, a grande revelação que é feita ao final da trama inicial de Toyama, “Terror em Silent Hill” vai além ao incorporar muito da parte visual de “Silent Hill 2, 3 e 4” (todos lançados para PlayStation 2), principalmente no que diz respeito aos vilões que neles aparecem. Questão retrabalhada por todo o longa-metragem, quem é fã da franquia sabe que, ao longo dos primeiros games, todas as aberrações que ali ganharam vida foram nada mais, nada menos que uma personificação monstruosa dos medos, traumas e temores mais íntimos dos próprios protagonistas; em poucas palavras, é como se a cidade trouxesse à tona todo o rancor e rejeição experimentados pelos personagens centrais de cada obra. E, como “Silent Hill 1 e 2” apresentam histórias autônomas (ou seja, elas não se misturam, uma não é a continuação da outra), a presença de bestas que só aparecem no segundo game da franquia (em um filme que segue o enredo do primeiro) se mostra, na opinião dos fãs mais conservadores, um tanto quanto incoerente.

Este é o caso de Lying Figure, Bubble Head Nurse e Pyramid Head, todas criaturas do game de 2001 – que tem como protagonista James Sunderland, e não Cheryl Mason e Alessa Gillespie (do game de 1999). Se seguisse fielmente a proposta idealizada pelos designers e roteiristas do primeiro “Silent Hill”, por exemplo, as enfermeiras do filme deveriam ser da “espécie” Puppet Nurse, e não Bubble Head.

O mesmo se repete em relação ao caráter de alguns nomes que aparecem no jogo original e ganharam destaque ao longo de “Terror em Silent Hill”, ora sendo transformados em mocinhos, ora em vilões (sim, Dahlia Gillespie, por exemplo, não era tão inocente assim em 1999).

Diferenças à parte, mesmo apresentando algumas inconstâncias que podem passar despercebidas ao telespectador leigo que nunca jogou qualquer game da série, ainda assim a versão de Christophe Gans merece o nosso reconhecimento por todos os seus esforços de tentar nos cativar.

Elas podem não ser as mesmas enfermeiras do primeiro game, mas se encaixam bem e desempenham um papel perturbador e competente no filme.
Algumas coisas não se mudam

Assim como os maus bocados vivenciados por Harry e Cheryl Mason no PSOne, Rose e Sharon também sofrem um acidente de carro que as leva até Silent Hill, uma cidade abandonada pelo tempo e encoberta por um denso nevoeiro. Com todas as saídas bloqueadas, carros sem funcionar e ruas sem a presença de uma alma viva (pelo menos humana), a protagonista passa a maior parte do tempo tentando se virar sozinha – assim como na aventura de Mason. Para sua sorte, porém, assim como no game, uma policial totalmente à parte de suas vidas também é levada para o local após ver mãe e filha num posto de gasolina e decidir segui-las numa suspeita perseguição pela estrada que separa Hill de Brahams.

Perdidas na cidade macabra, não demorará muito para que seres agressivos e totalmente surreais se revelem para brincar com a mente de Rose e Cybil (a policial) em inúmeras referências que tirarão o fôlego de todos que já jogaram qualquer título da franquia.


Mais do que uma mera adaptação, um recomeço

Seja pelos cenários altamente semelhantes ao que conhecemos nos jogos, seja pela desesperadora trilha-sonora criada por Akira Yamaoka (o mesmo compositor dos games) e Jeff Danna, o longa-metragem se desenrola bem fiel enquanto nos guia por uma onda incessante de detalhes impressionantes. O elenco, apesar de não ser o mais popular para a época, é convincente e desempenha bem o papel de nos fazer mergulhar no roteiro do filme, nos entregando atuações genuinamente satisfatórias. Mesmo recebendo alguns cortes no orçamento que foram responsáveis por mudar a grande cena final pretendida pelo diretor (é claro que, aqui, não iremos revelar o que foi alterado para não estragar a graça da produção), Christophe Gans soube como capturar a essência de Keiichiro Toyama de uma forma que nenhum outro cineasta teria sido capaz.

Uma das cenas originais mais icônicas do filme
Por mais que não seja uma adaptação 100% leal ao jogo de videogame lançado em 1999, “Terror em Silent Hill” acerta ao reformular toda a trajetória de Cheryl Mason e Alessa Gillespie para uma versão mais hollywoodiana, bem diferente da produzida pela “Konami” (e ao mesmo tempo tão similar).

Provavelmente, se assim o optasse, ou se tornaria muito complexo (e exigiria, pelo menos, mais alguns longos minutos de narração) ou ficaria confuso, perdendo o bom ritmo que Gans conseguiu desenvolver com maestria do começo ao fim. Na verdade, a produção funciona mais como uma visão alternativa do game original (quase um reboot) do que uma adaptação literal, apesar de isso não ser necessariamente de todo ruim. Mesmo com uma história profundamente reformulada, a ambientação pesada, os efeitos especiais e a base do horror permanecem presentes no longa, esperando ansiosamente para nos levar para toda a demência que rondam cada centímetro quadrado da cidade mais aterrorizante já criada pela indústria dos jogos eletrônicos.

Com um orçamento de 50 milhões de dólares, “Terror em Silent Hill” ultrapassou os 97 milhões e foi sucedido por “Silent Hill: Revelation”, o longa-metragem de Michael J. Bassett. Fugindo da honestidade e grandiosidade do primeiro filme, a sequência inspirada no terceiro game da série, além de massacrada pela crítica, não foi bem aceita pelo público.

Felizmente temos a obra-prima de Christophe Gans dentro de um raro acervo de "filmes-baseados-em-jogos-que-realmente-deram-certo". Por isso nada mais justo senão comemorar o aniversário de 10 anos do longa o assistindo em casa com os amigos (ou sozinho, se tiver coragem), não acha? Silent Hill e Alessa Gillespie sempre estarão lá, esperando por você de braços abertos, mas fique ciente que, uma vez dentro da cidade, não há escapatória.


Para notícias, novidades e outros conteúdos sobre a franquia Silent Hill, curta a página Silent Hill Brasil. Confira também o "Tirando da Estante" sobre "Silent Hill" - o game do qual esse filme foi baseado, clicando aqui. E se você quer ver um gameplay assustador e bem humorado do título, assista ao nosso gameplay retrô:


Ficha técnica

Título original: “Silent Hill”;
Ano: 2006;
Duração: 127 minutos;
Direção: Christophe Gans;
Elenco: Radha Mitchell, Sean Bean, Laurie Holden e Jodelle Ferland;
País de origem: Canadá e França.

Créditos

Texto: Marcelo Henrique
Colaboração: Juninho Lima

As opiniões e ideias apresentadas no texto são do autor e não do site Co-op Geeks

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