Menu
» » » » » Representativo e na medida - Citrus


Weslley Nogueira 11.8.16


Uma vez um amigo meu havia dito uma coisa interessante que me fez parar para pensar por alguns minutos e, após refletir sobre o diálogo que tivemos - que foi bem curto, eu percebi que, enquanto falávamos sobre mangás de abordagem homossexual e obras que tentam refletir os relacionamentos entre duas pessoas do mesmo sexo – uma obra que realmente quisesse desenvolver o relacionamento dos personagens de uma forma natural e que tudo fosse bem transposto, que não fosse forçado. E foi nesse dia, meados de Agosto de 2015 que eu conheci Citrus.


Citrus conta uma história que se propõe a desenvolver o relacionamento entre duas personagens femininas que por ironia do destino acabaram se tornando meio-irmãs, por conta de um relacionamento entre seus pais separados terem falhado anteriormente e seus atuais responsáveis estarem se relacionando. Por conta disso, Yuzu Aihara, deverá aprender a conviver com sua mais nova “parente” enquanto acaba descobrindo a sua sexualidade. Sentimentos despertam ao se deparar com “Mei Aihara”, que por coincidência, é também a presidente do conselho estudantil onde Yuzu estudará durante um bom tempo de sua vida.

A autora de Citrus é Saburo Uta. Muito pouco se sabe sobre essa autora - Citrus é sua única obra feita até hoje. O mangá foi publicado na Ichijinsha, especificamente na sua bimestral Comic Yuri Hime em Novembro, em 18 de 2012, uma antologia de publicações de quadrinhos japoneses Yuris, termo conhecido por abordas histórias homossexuais entre garotas. Ele é licenciado pela Seven Seas Entertainment, publicadora de mangás localizada em Los Angeles.

Progressivo e realista


A história começa em um ritmo um pouco mais lento do que comum e esperado em histórias de seu gênero, onde os personagens são apresentados ao público de uma forma um pouco rasa – deixando seus passados, trejeitos, personalidade e outras características que o definem como pessoa a serem exploradas no futuro. Mesma coisa acontece em Citrus, mas podemos dizer que ele vai ficando cada vez mais frenético dando eventuais pausas curtas para o desenvolvimento dos personagens. 

Apesar de forma superficial e não muito focada, as amizades são bem exploradas e até mesmo relações entre personagens são desenvolvidas através de pequenos diálogos, gestos, enquadramentos do mangá de suas cenas e o que eles pensam das situações em que estão inseridos. Pequenos dramas envolvendo sobre como lidar com a sexualidade acontecerão - o descobrimento - mas não na forma de questionamento sobre se isso é o certo ou errado no meio daquela sociedade que ela está inserida, e sim se aprofundando em querer estar cada vez mais perto daquela pessoa que ela está sentindo um afeto. 

Junto a isso, temos um lance psicológico acontecendo entre as personagens principais pois elas moram juntas, seus pais estão namorando e elas cada vez mais se preenchem de dúvidas sobre o certo ou errado do relacionamento delas. Tanto como “irmãs” quanto como futuras “amantes”, por mais que o lance de romance entre as personagens principais seja fortemente explorado em capítulos futuros.

O mangá consegue te entregar alguns acontecimentos de forma bem estruturada; momentos construídos pelo enredo que querem te passar uma sensação de progressão como por exemplo, o primeiro capítulo: que te apresenta como a protagonista é uma pessoa que acaba sendo muito influenciada pela mentalidade da realidade na qual ela está inserida, mesmo que ela discorde ou simplesmente não se sinta confortável a aquele ambiente. 

Também temos, no primeiro capítulo, a construção do relacionamento da personagem com a sua “irmã” e como isso poderá mexer com o seu psicológico não só como uma colega de escola ou familiar, mas também como ela deverá lidar estando perto de uma pessoa que mexe bastante com os seus sentimentos, despertando um lado que ela nunca tinha conhecido antes. 

O peso de Citrus: Uma personagem "principal" e uma protagonista.


Em Citrus, nós temos uma personagem principal e uma protagonista – sim, me refiro a Mei como sendo a personagem principal e a Yuzu como sendo a protagonista. Acompanhamos a história pela perspectiva da Yuzu, que nos é a grande protagonista da história e que Saburo Uta quer nos fazer se simpatizar pelos seus dramas adolescentes em volta do descobrimento da sexualidade, o jogo psicológico que acontece em sua mente no início do primeiro capítulo quando a forma que ela lida com situações que ela não vê outra escolha a não ser as mentiras, somente para estar inserida dentro de um padrão de convivência e também o relacionamento de seus pais e como ela tem que lidar tanto com a sua nova irmã, quanto o seu interesse amoroso que a partir de determinado ponto da história, um ponto não tão tarde assim, acaba se tornando o personagem principal do mangá – exato, falo de Mei.

Sem dar Spoilers de qualquer coisa, posso dizer que a personagem acaba se tornando um grande foco para Saburo. Apesar dela ter que trabalhar todos os personagens da sua história, ela iria ter que focar o desenvolvimento em uma personagem para que além de simpatizarmos com ela, termos um certo ponto de vista diferente da história sem mudar o protagonista. Nós vemos que as resoluções vão sendo dadas para a Yuzu de uma maneira condizente a sua idade e quando digo isso, me refiro a como ela vai lidando com seus “problemas” e “dificuldades” junto de seus amigos e futuramente, com o suporte de Mei. Nós vemos a história quase que por inteira, por sua perspectiva – seus pensamentos, maneiras de agir. Mas em contraste a isso, nas entrelinhas, nós temos as ações e os silêncios de Mei que podem ser capaz de nos dizer muito, como principalmente, o assunto do próximo tópico.

A Importância de Mei na história.

Imagina a dor de cabeça em alguém que carrega o peso de importância da história nas costas?
A personagem começa de uma forma muito genérica para os padrões de animes e mangás, principalmente para os padrões de personagens desenvolvidos para relacionamentos homossexuais desse gênero Yuri – a típica líder do conselho estudantil que é severa quanto as regras do ensino e de comportamento local, fará de tudo para manter a ordem mesmo que tenha de ser fechada emocionalmente, não se abrir para as pessoas com regularidade – não se abrir de maneira nenhuma, as vezes. Todas as vezes, um background é construído para justificar ações radicais da personagem e coisas que iriam contra a sua personalidade construída aquele momento. Para Mei, isso é diferente – não de uma forma inovadora, mas podemos dizer que ela não é tão dentro do padrão quanto pensamos.

Desde o início da história quando ficamos a saber mais do círculo de amizade que está em torno da Mei, sabemos mais de sua personalidade, como ela é realmente fixada em manter a ordem e a preservação do certo naquele território que ela se estabeleceu como líder e, acima disso principalmente, o quão importante para ela é realmente ser vista dessa forma. Não sabemos disso de instância, mas a história nos mostra isso através de interações da protagonista com os outros personagens que já a conhecem como por exemplo, Himeko, a vice-presidente do clube estudantil e que está ao lado de Mei desde que elas eram crianças.

Relacionamentos e descoberta de desejos sexuais por outras pessoas, nunca foi um segredo para Mei ou algo que ela não queira falar sobre, mas ela não torna isso um foco – podemos dizer que, assim como muitas coisas na sua vida, ela desistiu desse lado para focar em passar uma imagem autoritária, opressiva e de ordem. E ISSO… é um contraste perfeito a ser construído em cima da personagem quando você tem Yuzu como protagonista e também o seu par romântico. Muitos momentos da história, notamos como ela é fria com Yuzu, dizendo que ela é um importuno e que não deveriam ter essa relação, quando na verdade eram seus sentimentos internos se conectando a ela de alguma forma e vemos mais disso quando em um momento da história conhecemos o pai da Yuzu e finalmente, o motivo dela ser tão obcecada pelo controle.

Mei é importante para a construção da história não só por ser um grande espelho e reflexo do que é a Yuzu e o que ela quer, como também uma ferramenta que construirá todos os personagens ao seu redor através de suas interações com Yuzu e seus sentimentos quanto a ela e sua nova família. Apesar de o mangá utilizar muito do recurso “conveniência”, vemos o quão importante o personagem da Mei ser alguém recluso, fechado e continuar assim mesmo após se aceitar e decidir ir a fundo no seu relacionamento com Yuzu, é para a história pois é justamente isso que lentamente vai também envolvendo personagens secundários que estão naquele ciclo e tem muito a dizer sobre eles, aqueles que eles amam e que se envolvem e também sobre a obra em si e o que ela quer te passar.

Leia Citrus, você não se arrependerá!



Citrus é uma história sobre duas personagens que vão se descobrindo aos poucos, tanto fatos escondidos dentro de si como uma da outra. A conexão das personagens vai ficando cada vez mais forte e intensa, exatamente o que a história precisa para que outros personagens despertem de seus buracos – que mesmo dentro deles, possuem suas peculiaridades e particularidades que prestamos atenção nos detalhes cativantes de construção dado a eles. Além disso, a trama está em constante movimento, seja eles momentos aleatórios com pequenas mensagens e dicas do que ela quer dizer e o significado dela estar ali, quanto a importância narrativa para o desenvolvendo daqueles personagens.

É um mangá bem desenhado, bem enquadrado – apesar de ter um capítulo em específico que a Saburo parece não ter tido tempo o suficiente para desenhar e o que vemos lançado é literalmente os primeiros tralos daquele capítulo ali, bem dirigido e, mesmo não objetivo no que quer passar, bem conciso. Ele trabalha um pouco com algumas conveniências, mas elas possuem um motivo para estarem acontecendo por mais que, colocadas em situações no nosso mundo, sejam um pouco forçadas mas fator esse que não diminui em nada o desenvolvimento daqueles personagens.

É uma série que, apesar de ter o relacionamento gay como um tema central e também ser a preferência sexual daqueles personagens, não é nem de perto o grande foco da história por mais que ele seja repleto de cenas com amassos, beijos e até mesmo insinuações sexuais. Apesar disso, qualquer adolescente pode ler pois é altamente recomendável.

Créditos

Texto: Weslley Nogueira

A análise apresenta os conceitos, opiniões e ideias do autor do texto - todos os pontos de vista são de responsabilidade do autor.

«
Próximo
Postagem mais recente
»
Anterior
Postagem mais antiga