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» » » » » » Não estamos sozinhos: O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu


Bruno Bolner 25.11.16


A ficção científica é um gênero bastante abrangente e permite a criação de histórias nos mais diversos assuntos. A cultura sci-fi tem muitas obras sensacionais, em todas as mídias, e possui um público muito exigente. É um tema que precisa ser criativo, interessante, levar o leitor a outras realidades e fazê-lo acreditar que aquilo é possível, tudo isso ao mesmo tempo, e não é para qualquer um conseguir uni-los em uma única obra.

Cixin Liu consegue embasar seu livro de forma tão rica que é praticamente impossível não pensar na existência de vida fora da Terra ou no que grandes corporações e nações podem estar envolvidas e escondendo da população mundial.

O Problema dos Três Corpos levanta discussões sobre a vida humana e a sua capacidade de lidar com os outros seres, trazendo uma trama envolvente e curiosa sobre física e astronomia, utilizando como base o problema dos três corpos.

A Revolução Cultural

Durante a década de 60, a China inteira estava passando por uma grande revolução que acarretou na morte de milhões de pessoas, uma das fases mais violentas do país. Essa revolução foi instaurada durante uma campanha político-ideológica de Mao Tsé-tung, o então líder do Partido Comunista Chinês, cujo objetivo era neutralizar as crescentes forças opositoras do partido que prejudicavam a força econômica do país. A fim de eliminar os suspeitos de deslealdade política ao governo, foi criado a Guarda Vermelha, uma facção subordinada do governo que viajava o país instaurando os pensamentos e ideologias de Mao e punindo os traidores. É nesta realidade que se inicia a trama de O Problema dos Três Corpos.

Ye Wenjie, uma jovem pesquisadora, vê seu pai, um influente físico e professor universitário, ser acusado de traição pelo uso de conceitos científicos desenvolvidos no ocidente. Tanto pai, quanto filha, são punidos pelas suas práticas: ele, com a vida; ela, com a perda do direito de continuar suas pesquisas e do direito de ir e vir. O choque do desfecho da punição de ambos, transforma a vida da garota e planta em seu interior, despercebidamente, o ódio pela raça humana. Ye, agora uma mente perigosa aos olhos do governo, se instala na Base Costa Vermelha, uma base científica militar misteriosa, onde nem seus funcionários sabem direito o que faz.

A mescla entre a realidade da China nesta época e a história criada por Cixin Liu dançam uniformemente enquanto a criatividade do autor utiliza a história do próprio país como catalisador dos interesses de seus personagens. Ye, uma simples garota cuja paixão é a física, fomentada pelos interesses dos pais, acaba tendo a juventude destruída, sendo obrigada a trabalhar em um lugar estranho e tendo toda a liberdade roubada, uma realidade que milhões de chineses também viveram entre 1958 e 1969. O autor conta em seu livro, não apenas sua ficção, mas também a história de uma das maiores revoluções que a China viveu.

Física, Astronomia e o Problema dos 3 Corpos


Enquanto a Revolução Cultural ocorria na China, os pesquisadores passaram a ter dúvidas em relação a veracidade da física, pois seus conceitos de base passaram a ser discutíveis. Nisso, muito da ciência passou a ser desconsiderada e quem a estudasse era punido.
Após Ye ir trabalhar na Base Costa Vermelha, realizando procedimentos de manutenção e controle de uma antena, somos apresentados a outros estudiosos e ao nosso protagonista, Wang, um cientista que trabalha na pesquisa e desenvolvimento de um material que utiliza nanotecnologia.

A pesquisa de Wang não era considerado anti-governo, mas ele acaba tendo alguns problemas relacionados a ela. Ele é convocado a integrar um conselho de estado de guerra e, ao se associar aos grandes nomes do conselho, passa a enxergar uma contagem regressiva misteriosa constante em seu campo de visão, que aparece independentemente do local para onde olhe. 

As dúvidas relacionadas ao seu incidente acaba levando Wang a conhecer Ye e também a começar a jogar "Três Corpos", um jogo de realidade virtual onde se precisa desvendar um problema complexo e praticamente impossível para entender o que está acontecendo no mundo real.

É interessante notar que, durante toda a narrativa, o autor troca o foco de um personagem para o outro, fazendo um jogo com o próprio leitor, que precisa estar atento para conseguir encaixar as peças desse grande quebra-cabeça. Durante o trajeto, muitas questões são levantadas e o escritor utiliza da linguagem técnica para embasar suas escolhas. Não se assuste se caso achar o livro parecido com um artigo científico, pois o autor usa muito da teoria de base para fundamentar os diálogos entre os personagens e justificar escolhas e acontecimentos que levam sua história adiante. Contudo, não se engane, as reviravoltas e o desenrolar da narrativa são dignos de uma obra sci-fi de ponta!

Utilizando seu vasto conhecimento sobre as teorias de base, Liu insere o problema dos três corpos em forma de jogo de videogame, onde o jogador busca resolver essa questão para um planeta chamado Trissolaris, cujo sistema solar possui 3 sóis. No livro, a possível solução do enigma pode levar a raça humana à extinção e o conselho de estado de guerra precisa intervir para descobrir o que O Problema dos Três Corpos tem haver com tudo isso.

Caminho bem traçado

Este primeiro livro traz uma trama bem amarrada e desenvolvida. O autor toma o cuidado de inserir os elementos essenciais aos poucos, fazendo um desenvolvimento mais lento em seu início, preferindo inserir o leitor na trama antes de tudo. Os elementos são bem aproveitados, fazendo com que o leitor se questione nos momentos certos e descubra suas funções de forma bem interessante. Não há desperdício de informação e as respostas às questões levantadas durante o livro ocorrem de forma natural.

O tema central da história trata do relacionamento dos seres humanos em relação aos outros seres. Há críticas aos governos, destruição do meio ambiente e sobre o poder nas mãos das grandes corporações. Porém, somos levados a viajar nas dúvidas sobre vida extraterrestre e o que aconteceria se caso conseguíssemos contato com algum tipo de vida fora da Terra. E o impacto que isso causaria na população em geral. Liu nos faz refletir sobre a possibilidade de existir outros tipos de vida no universo.

Os personagens são o ponto chave para o desenvolvimento da narrativa, pois o autor tomou cuidado para não criar personagens caricatos e que soassem superficiais. As menções a acontecimentos e figuras públicas da China tornam a história mais encorpada, inserindo o leitor mais a fundo na história. As reviravoltas e revelações são pontos muito interessantes, dando um novo fôlego à história a cada capítulo.

Outro ponto alto do livro é a escrita do autor, simples e objetiva, dizendo o que se quer com clareza e sem rodeios, fazendo uso de metáforas apenas em momentos necessários, assim como o uso da linguagem lírica em momentos de exposição de pensamentos dos personagens, o que torna-os mais humanos.

Por fim, as notas do autor e do tradutor são um plus, que ajudam na compreensão dos fatos e complementam a leitura. O uso de outras mídias, como o site www.3corpos.net, também deixa o leitor curioso, pois oferece muito e tão pouco ao mesmo tempo nessa interação, deixando dúvida do que pode estar por vir aí. E seu final deixa uma ponta gigantesca para suas 2 continuações, The Dark Forest e Death's End, ambos ainda sem tradução no Brasil.

Sinopse oficial

China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena a beira do colapso planeja uma invasão. “O problema dos três corpos” é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Sobre o autor

Cixin Liu nasceu em 1963 na província de Shanxi, China, e é o mais prolífico autor de ficção científica do país. Durante a Revolução Cultural Chinesa, foi enviado para a casa de familiares na província de Henan. Formado em engenharia pela Universidade do Norte da China, foi engenheiro em uma usina elétrica antes de se tornar escritor. Venceu oito vezes o mais importante prêmio chinês de ficção científica, além de ter sido o primeiro autor não anglófono a vencer o prêmio Hugo de melhor romance.

Ficha técnica

Título original: 三体
Autor: Cixin Liu
Gênero: ficção científica
Editora: Suma de Letras/Companhia das Letras
Lançamento: 2016
Quantidade de páginas: 320
Tradução: Leonardo Alves
ISBN: 978-85-5651-020-4

Esta resenha foi totalmente patrocinada pelo Grupo Companhia das Letras, editora fundada em 1986 que divide o seu trabalho entre a administração, tradução, preparação de texto, revisão, pesquisa iconográfica, ilustração, design gráfico, vendas, divulgação e atendimento a professores. Com foco em literatura e em ciências humanas desde a sua fundação, estas se ramificam em: ficção brasileira, ficção estrangeira, poesia, policiais, crítica literária, ensaios de história, ciência política, antropologia, filosofia e psicanálise. Outras séries que também ganharam corpo nos últimos anos foram: fotografia, gastronomia, divulgação científica, biografias, memórias e relatos de viagem, além de outros projetos especiais. Conheça mais sobre o Grupo Companhia das Letras acessando o site e seguindo os perfis no FacebookTwitterInstagram YouTube.

Créditos

Texto: Bruno Bolner

O artigo representa as opiniões do autor do texto,e  não a opinião do Co-op Geeks.

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