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Felipe Cavalcante 25.1.17


George R.R. Martin é um dos autores mais comentados na atualidade, e, a não ser que você tenha vivido numa caverna na última década já deve saber muito bem que ele é o célebre autor de As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire) e também autor e editor das antologias de livros de Wild Cards, além de outras obras que já estão sendo encaminhadas para futuras adaptações como Skin Trade e Fever Dream.

Se você realmente viveu numa caverna, porém ela tinha algum sinal de wi-fi, então pôde no mínimo notar que o sucesso de Martin aumentou exponencialmente após a explosão fenomenal da série da HBO Game of Thrones que adapta sua série de livros e magnum-opus.

Agora quais seriam os grandes diferenciais na escrita de George R. R. Martin? As características únicas que com toda certeza levam os fãs a se perguntar: como ele vai ser lido daqui a alguns anos?

ATENÇÃO: Esse texto CONTERÁ POSSÍVEIS SPOILERS da trama de "Game of Thrones" e as "Crônicas de Gelo e Fogo", leia por sua conta em risco.


Você pode não gostar dele, mas não pode negar que ele tem estilo



O estilo de escrita de G.R.R. Martin tem principalmente várias subversões de alguns temas e arquétipos já estabelecidos no gênero da literatura fantástica, mais especificadamente na Alta Fantasia épica, que é um gênero que tem muita inspiração em Tolkien

(guarde essa informação vai ser importante!)

Nós já temos a primeira pista do que o Martin está querendo fazer com as Crônicas logo quando ele usa diferentes pontos de vista nos capítulos.



P.O.V. para os mais íntimos e gamers, essa é uma técnica de escrita modernista que serve para você mergulhar na cabeça dos personagens, é por isso que do ponto de vista da Arya Stark todos os Lannisters deveriam ter suas cabeças presas numa estaca, mas do nosso ponto de vista de leitores, sabemos que eles, principalmente Tyrion e Jaime são mais do que aparentam ser.

Pequenos detalhes nesse tipo de narrativa fazem toda a diferença, por exemplo na cena de Fúria dos Reis em que Melissandre diz para Davos que "se uma cebola tem uma parte dela podre, então está podre por inteira", seguida de um capítulo onde Sam Tarly ganha uma cebola meio podre, ele corta a parte podre e aproveita a parte boa, justaposições simples que refletem conceitos muito mais complexos.

Aliás, ser mais complexo do que se aparenta, mais do que preto e branco, é um tema recorrente da série, quase todos os personagens são cinza, nem bons, nem maus, suas escolhas costumam ser bem moralmente ambíguas e é óbvio que isso faz com que algum deles se relacione mais facilmente conosco que outros.

Todos os personagens são projetados para ter sua voz interna e sua visão do mundo, mas não só isso, apesar da história conter dragões e magia, entre os temas principais não se incluem a batalha do bem contra o mal, mas tem mais foco em questões de lealdade, violência, religião, os horrores da guerra e de aspectos humanos como a sexualidade...


A História Real de Westeros

As inspirações para o desenrolar das guerras travadas para que um rei se sente no Trono de Ferro vieram de inúmeros fatos históricos do nosso próprio mundo, costuradas  para caber na história de forma orgânica e o desenvolvimento dos personagens vem do final desses acontecimentos: um perdedor e um vencedor, e a consequência pra ambos.


Provando que nada se cria, tudo se recicla o G.R.R. Martin fez seu dever de casa de História e usou como principal fonte de inspiração a Guerra das Rosas para o conflito dos Starks contra os Lannisters.

A Guerra das Rosas (1455 - 1487) foi um conflito civil que aconteceu dentro da Guerra dos Cem Anos que durou 116 anos entre duas famílias, os York e os Lancaster... E podemos lembrar que o rei na época, Henrique VI tinha uma tendência à... cof, cof, loucura targaryen, cof, cof.. a Guerra das Rosas também foi marcada por traições, emboscadas, armadilhas e personagens históricos muito curiosos, como Ricardo III - Shakespeare até escreveu uma peça sobre o sujeito - que aparentemente além de ser coxo e corcunda, tem muito haver com Tyrion Lannister.

Ricardinho III, pra muitos historiadores hoje, pode não ter sido um rei tão ruim assim e pode nem ter matado os próprios sobrinhos, mas sim falsamente acusado pelo crime, e se lembrarmos de como o povo enxerga o Tyrion (tipo naquela peça com a Lady Crane) só podemos orar para que o final dele não seja ser encontrado anos depois enterrado num estacionamento. 


O Casamento Vermelho foi baseado no Black Dinner que aconteceu na Escócia, sem falar na grande mancada de Robb Stark que lembra demais a história de como Edward IV se casou, que se casou secretamente com uma jovem viúva, Elizabeth of Woodville, após se apaixonar perdidamente pela moça durante um passeio na floresta e acabou perdendo o apoio financeiro do rico ixalá muito ouro Conde de Warwick, e seguido de reality ensues.

E as inspirações de Martin no nosso mundo não fica apenas na história, mas também geograficamente, os Sete Reinos refletem bastante a Europa Ocidental: o Norte seria Escócia; as Ilhas de Ferro, a Escandinávia (com Vikings adoradores de um Cthulhu); as Terras Fluviais seriam o Norte da França e a Bretanha; o Vale seriam os Alpes, as Terras Ocidentais uma mistura de Inglaterra com minas de ouro como as Johanesburgo; a Campina é a Florença e Dorne tem ares da Espanha moura com toques de países árabes.

Mas claro, o Martin não se limita a isso, ele além de apresentar lugares diferentes de todo um universo diferente, mas ao mesmo tempo muito parecido com o nosso também reproduz alguns ideais que existiam na época medieval e os torce para tornar os personagens mais humanos, por exemplo os dorneses, que poderiam muito bem serem retratados como esteriótipos de um povo lascivo, exótico, promíscuo e de sangue quente, mas, quando somos apresentados à cultura dornesa por outros olhos percebe-se que eles tem uma política mais abrangente com mulheres, menos problemas com sexualidade e tratam os bastardos deles como gente... Enquanto que na série...


A cultura de Braavos, vem das cidades italianas de Florença e Veneza, tanto pelos canais, quanto por serem cidades de mistérios, cortesãs e espadachins, a Muralha se baseia no Muro de Adriano construído pelos romanos para impedir a invasão dos bárbaros, e, coincidência ou não existe um lugar na Escócia chamado, adivinhem: Wester Ross.

George R. R. Martin versus J. R. R. Tolkien - e outras inspirações



Esse é o momento em que todos somos aquele meme do Capitão América, porque aí vem as referências.

Ok, então G.R.R. Martin se inspirou em J.R.R. Tolkien para escrever as Crônicas, mas o ponto é: todo o conceito atual de fantasia de certo modo se esbarra em Tolkien.

E desculpe pessoas que gostam da treta, mas do mesmo jeito que você pode falar bolacha ou biscoito, Tolkien e Martin estão no mesmo nível. 


Ok, já escuto a multidão furiosa com forcados e tochas... Mas, deixa eu explicar: a literatura fantástica mudou completamente de curso com os livros de Tolkien, a obra dele tem moldes dos épicos clássicos misturada com os mitos anglo-saxões e arturianos, ele usa o ideal bem vs. mal, enquanto que o Martin quer abordar aspectos que Tolkien não abordou.

Enquanto Tolkien termina a história dizendo que "Aragorn, filho de Arathorn foi um rei justo e bom..." Martin vai se preocupar com aspectos políticos, tipo, qual a política dele de taxação de imposto? O método de estocagem de alimentos para o inverno que ele usa é o mais seguro? Qual o posicionamento dele quanto à internet limitada? o sorvete favorito dele é Haagen daz?

Esses aspectos politicos ou a ambiguidade moral de vários personagens do Martin, ou mesmo as consequências da guerra do ponto de vista direto dos plebeus e camponeses não são coisas que Tolkien tinha intenção de desenvolver, claro.

Isso não quer dizer que a obra do Tolkien é menos complexa que a do Martin, o pós-trauma do Frodo, o dilema do Gollum, a tragédia do Dénethor e o desenvolvimento de personagem do Sam, são igualmente válidos perante o desenvolvimento da Sansa, o dilema do Jon Snow e o pós-trauma e jornada vingativa da Arya.


Mas não é só de Tolkien que as referências surgem, os Homens de Ferros tem várias referências à Lovecraft, os Greyjoy tem como símbolo um kraken, um dos seus antepassados se chamava Dagon, além do fato de que Carcosa e Leng estão no mapa do Mundo de Gelo e Fogo e em Qohor, existe um deus que tem a forma de um Black Phillip bode preto... 

Cersei Lannister recebeu uma profecia de que um dia "chegará outra, mais jovem e mais bela, para derrubar você e tomar tudo o que lhe é querido"  e a partir daí ela resolveu encarnar mesmo a Rainha Má com a Sansa e a Margaery Tyrell, só que sem maçã envenenada porque afinal o Inverno está chegando.

O fluxo de sangue, também é conhecido como "égua descorada" ou seja, amarela, pálida, exatamente como é a cor do cavalo da Morte, um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, e outro ponto de inspiração para o Martin - com sua pitada de subversão - seria a ficção GÓTica me perdoa pelo trocadilho, não desiste de mim.


Theon Greyjoy que não apenas tem um arco reflexivo de redenção, onde ele constrói sua identidade, depois vira o Fedor e precisa reconstruí-la novamente, está dentro de um castelo assombrado, no caso Winterfell, cercado por um "monstro" e com uma noiva de branco, no caso a Jeyne Poole e a própria Sansa está vivendo sua história de horror e gótico feminino com a influência de Mindinho... Preciso lembrar dos motiffs de corvos, árvores pálidas que choram lágrimas vermelhas, criptas de Winterfell e rosas azuis pra provar que o lado trevoso das Crônicas se destaca bastante?

Além de inspirações literárias, Martin usa bastante das raízes mais folclóricas de muitas culturas para construir um contexto histórico para Westeros (e também para Fever Dream, que é uma história de vampiros muito boa)  o que nos leva a...

Mitos e Contos mais velhos que o mundo...


As Crônicas de Gelo e Fogo tem inúmeros elementos fantásticos (Wild Cards é baseado em ficção científica e super-heróis), porém caso alguém compare com outras histórias, ela tem bem menos magia que outras séries. 

Isso porque magia, feitiços e varinhas mágicas não necessariamente são os elementos fantásticos que o Martin usa nos livros, a maioria dos grandes feitos de magia que mudaram o continente de Westeros, por exemplo, a construção da Muralha, o Braço de Dorne, a inundação do Gargalo e até mesmo alguns detalhes históricos são misturados com magia, mas do tipo que não se vê mais há mil anos... Ou seja, seguindo o lado  mais realista, esses fatos podem não ter acontecido exatamente daquele jeito, e a magia que ainda existe no mundo, seja em Westeros ou Essos, normalmente é muito mais perigosa e instável que fantástica e deslumbrante, vide bebês sombra.

E os elementos fantásticos que se destacam na história incluem mais o metafórico e o ambiguamente mágico. 
Mesmo as religiões tem muito dos mitos, a Fé dos Sete pode ser um análogo do Catolicismo, mas ao mesmo tempo tem as faces da Tríplice Mãe: a Donzela, a Mãe e a Velha fazendo contraponto com as partes masculinas do Deus dos Sete, os Deuses Antigos são muito parecidos com o animismo e as religiões celtas e druidas e toda a magia da Melissandre tem base no R'hllor que é muito mais um conceito abstrato para a luz e o fogo.

Os Filhos da Floresta também, além de serem o total oposto ao elfos como nós conhecemos, são muito ligados à Terra, e, eles lembram um pouco aborígines australianos ou nativos ameríndios, sem falar que Bran, que significa Corvo, tem um pouco da lenda de Bran, o Abençoado, um gigante que foi salvar a sua irmã de um casamento arranjado e essa lenda se mistura com a da Torre de Londres, pois dizem que se algum dia todos os corvos da torre irem embora a Inglaterra vai cair... tipo uma Muralha...
E agora o nosso Bran Stark está em processo de se tornar uma espécie de Groot Protetor do Norte, tomar o lugar do Corvo de Três Olhos ou algo parecido através dos represeiros, contra os Outros (ou White Walkers) que segundo o próprio Martin são uma espécie de sidhe de gelo, eles são como as fae, ou seja fadas.


Não vamos esquecer também a busca pelo Graal, em que o cavaleiro mais puro e mais honrado, Galahad é o único que pode alcançá-lo do mesmo jeito que Brienne é a única que pode achar as meninas Stark sem querer se aproveitar da situação e a dupla que ela faz com o Pod (meu personagem favorito, falo mesmo) é muito Dom Quixote e Sancho Pança.

E a reposta é...

Agora depois de tanta referência e de tanta construção de personagem e historicidade entremeada no desenvolvimento das Crônicas, podemos dizer que A Song of Ice and Fire vai ficar para a história como um clássico literário?

Eu queria dizer que sim.



Calma, eu não disse que não vai, só disse que eu não sei. Acontece que existe uma escolha deliberada de críticos literários e estudiosos do círculo de letras para decidir que tal obra é um clássico e que merece ser lida e relida e deixada para a posteridade...

Porém, do mesmo jeito que Harry Potter se tornou um fenômeno cultural e literário inegável desculpe Ruth Rocha, mas é literatura sim os livros e a série da HBO criaram toda uma base de fãs e leitores assíduos que especulam e analisam a obra de diversos aspectos, mostrando que a obra do Martin tem muito o que oferecer ao mundo e responder a questão: quem vai sentar na cadeira mais desconfortável do mundo?


E por enquanto é só isso patrulheiros da noite, montem seus dragões e não esqueçam: Valar Morgulhis.

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