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» » » » » » » » » Fragmentado - talvez M. Night Shyamalan esteja perdoado?


Felipe Cavalcante 15.3.17



O novo filme de M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, Sinais e A Vila) parece ter sido um plot twist na vida real, depois de uma série de filmes mal recebidos pela crítica e pelo público em geral, o diretor parece que está voltando às suas raízes num thriller bem construído cuja tensão aumenta num ritmo minuciosamente tecido.


ATENÇÃO: Esta análise NÃO CONTÉM SPOILERS de 'Fragmentado'. Prossiga despreocupado e boa leitura!

Uma trama original 

O filme começa com três jovens adolescentes dentro de um carro, um homem desconhecido entra nele, ele esfrega o vidro, gira a chave e dopa as três. No momento em que acordam estão dentro de um quarto escuro e desconhecido, completamente fechadas, foram sequestradas.

Este homem é Kevin (James McAvoy) que sofre de um distúrbio mental, desordem dissociativa de identidade, e possui vinte e três diferentes personas dentro de si e agora Casey, interpretada por Anya Taylor Joy (A Bruxa) e suas duas amigas precisam tentar fugir de algum modo dali com a ajuda de alguma das outras personalidades conflitantes de Kevin, antes que seja tarde demais.

O plot que parece ao mesmo tempo ser muito simples e muito intricado foi executado de modo muito bem feito, Shyamalan começa o filme com uma câmera fechada e uma sensação de claustrofobia, e vai lentamente revelando as locações, de dentro para fora. 
Além disso, o próprio lugar para onde as três garotas são levadas é cheio de quartos e corredores como um labirinto, refletindo à própria mente de Kevin. 





Todos estão dentro dele

James McAvoy faz um trabalho de atuação inexplicável, a acentuação facial e os maneirismos que cada personalidade possui faz com que o espectador saiba quem está ali naquele presente momento de imediato.

Ao longo do filme quatro das personalidades ganham mais destaque: Dennis, um homem metódico, centrado e obcecado por limpeza, Patricia, uma mulher afável, que parece tentar confortar as três meninas naquela situação, Barry, um estilista de moda criativo e desinibido e Hedwig, um menino de nove anos, e o trabalho de postura, do comportamento e de transformação corporal que decorrem até o final do filme com toda a certeza são bastante críveis. 

A atuação de Anya Taylor Joy também merece muito destaque, ao longo do filme a sua personagem vai sendo moldada e mais de seu passado misterioso vai sendo revelado.




Fora da luz

O trabalho de câmera em cada take além de ser bem cuidadoso e ter uma referência que lembra Hitchcock apela também bastante para o contraste entre a luz e a sombra, com a iluminação certa uma parte de uma casa pode se tornar simplesmente aterrorizante.

Além disso o contraste de luz e sombra que é apresentado não apenas cria tensão no filme, como mostra a complexidade da situação de Kevin: quando ele está contracenando com a psicóloga Drª. Fletcher (Betty Buckley, que já trabalhou com Shyamalan em The Happening) está dentro de um recinto bem iluminado, sendo educado e gentil. 

No filme estar "dentro da luz" é quando uma das personalidades está na posse naquele momento. E no começo, as personalidades boas de Kevin são apresentadas em ambientes claros. Quando outras personalidades assumem, porém, tudo é mais escuro e sombrio, e quando todas as luzes vão sendo apagadas, algo muito pior está por vir...




O Plot Twist - e um final que pode confundir

A assinatura de M. Night Shyamalan é um filme que termina com um twist no final, um final que muitas vezes é impactante e surpreendente, porém, com o tempo a maioria dos seus filmes acabou entrando em desalinho com o público e a crítica justamente por não necessariamente corresponder às expectativas, mas nesse caso o diretor não apenas entrega o que promete como faz algumas subversões na sua conclusão.

O final do filme, para alguns pode ser considerado anti-climático ou mesmo estranho (principalmente se você não estiver familiarizado com os trabalhos anteriores do diretor), porém ao longo do filme indicações pequenas e sutis são dadas para que no final tudo se encaixe, desde pequenas falas que indicam as razões para o sequestro e o desenrolar da trama até cenas que inicialmente parecem desconexas, como uma visita de Kevin/Dennis ao trem. Ainda assim, muitas explicações ficam penduradas no ar e isso pode muito bem ser visto como um demérito pro filme.

Até ali até mesmo o elemento mais fantasioso do retrato de uma doença mental, que foi muito criticado por diversas pessoas, acaba se justificando por causa de uma torção na história que encaixa muito bem a construção da personagem da Casey com a de Kevin e suas outras vinte e quatro personalidades.




Enfim, apenas o tempo dirá se os próximos filmes serão melhores e se Shyamalan poderá ser realmente perdoado em nossos corações por The Last Airbender, além de tudo... e etcetera.

'Fragmentado' tem sua estréia prevista para 23 de março.

Créditos:
Texto: Felipe Lima



Este review apresenta opiniões e ideias do autor e não do site Coop-Geeks

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