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Felipe Cavalcante 3.7.17


American Gods mal teve sua primeira temporada exibida e já foi renovada pelo canal STARZ, além de ser distribuida pela plataforma de streaming da Amazon, a série que é baseada no livro de Neil Gaiman - sim, o escritor de Coraline, Stardust e Sandman - e centrada no ex-presidiário Shadow Moon (Ricky Whistle) em luto pela sua esposa Laura (Emily Browning) entrando no mundo seu misterioso empregador Mr. Wednesday (Ian McShane) nos apresentou uma história sobre a forma como os deuses e suas histórias estão sendo rapidamente substituídos pela tecnologia e as novas formas de adoração que talvez nós nem estejamos vendo. 



ATENÇÃO: o seguinte post CONTERÁ SPOILERS sobre a primeira temporada de "American Gods", leia com atenção!

Os deuses vivem e deuses morrem

Uma das primeiras coisas que podemos notar na série é a abertura cuja trilha sonora produzida por Brian Ritzell remete diretamente à música Immigrant Song da banda Led Zeppelin (especificamente o cover de Trent Reznor and Atticus Ross) , o que é extremamente apropriado levando em conta um dos temas centrais da série: a América é formada por imigrantes.


Os deuses que foram de algum modo trazidos à América, todos vieram pela força da fé de imigrantes, de pessoas que de algum modo chegaram ao Novo Mundo e enfrentaram as dificuldades de se estabelecer num país que não lhes pertencia, numa cultura que não lhes pertencia ou mesmo sendo pessoas que não pertenciam aquele lugar. 

Nas sequências de Coming to America - que são apresentadas por Mr. Ibis (Demore Barnes) - somos apresentados às histórias da chegada de Mad Sweeney, por exemplo, mas o grande foco é na personagem Essie McGowan (que também é interpretada por Emily Browning), a garota irlandesa que acredita nas fadas e em sua proteção com tamanha fé que isso a ajuda durante as privações no seu percurso para a América e também na história de Salim (Omid Abtahi) que está preso numa vida como um vendedor fracassado, além do esquecimento e estado de miséria vistos no apartamento onde Czernobog (Peter Stormare) e as irmãs Zorya se encontram, os Estados Unidos podem ser hostis para os imigrantes que chegam ali e os deuses que são trazidos ali estão morrendo pela falta de fé dos seus adeptos. 




Muitas vezes quando confrontados pelas dificuldades essas pessoas que vieram à América chamaram seus deuses, mas agora os tempos são outros e os Velhos Deuses reunidos por Wednesday precisam reagir para evitar o seu esquecimento.

Representatividade de minorias

Um dos grandes triunfos de Deuses Americanos com toda a certeza é além do seu elenco diverso, a falta de medo em tocar em temas delicados. Como um retrato da vida atual nos Estados Unidos a série aborda a questão do racismo, da xenofobia e da violência crescente contra mulheres na atualidade de um jeito extremamente simples: permitindo o olhar do outro. 




Uma das cenas mais controversas foi a do personagem Salim, que além de ser gay, também muçulmano, se vê preso entre o trabalho de vendedor e uma vida infeliz de alguém que não se encaixa dentro do espaço em que está. A sua cena com o Djinn (Mousa Kraish) não é apenas uma das cenas mais gráficas de sexo gay exibidas na televisão, mas também uma cena de duas pessoas em uma completude, um preenchimento do vazio de duas pessoas perdidas num país que não é o seu, imigrantes e diferentes.




Outra faceta desta representatividade que se mostrou na série foi a personagem Bilquis (Yetide Badaki) que teve uma expansão do seu papel original, a divindade que também é conhecida como a Rainha de Sabá explora a bastante o tema da sexualidade nos dias de hoje, como o vazio das relações feitas por aplicativos servem apenas para alimentar momentaneamente a falta de orações de Bilquis, e, também, o lado feminino do sexo. No episódio "Come to Jesus", Anansi (Orlando Jones) começa a contar a história de uma deusa que foi privada de seu poder pelos homens, o culto à Bilquis é a comunhão com o divino através do sexo, mas as restrições masculinas tiraram isso dela, e ironicamente é a mesma história da Páscoa (Kristin Chenoweth) privada e esquecida, sendo obrigada a aliar-se aos Novos Deuses e ser relegada à papel de fundo na nova ordem.

Temos diferentes tipos de mulheres na série, e muitas vezes uma reflete a outra no seu total oposto, como Essie, que carrega desde criança a crença no Povo das Fadas e Laura, que nunca conseguiu acreditar em nada. 




Outra das cenas mais marcantes da série, também foi o Coming to America de Anansi - o Deus africano que por muitas vezes toma a forma de aranha e contador de histórias - onde ele aparece num navio negreiro que está quase chegando à então colônia que era os Estados Unidos; a visão ácida que ele apresenta sobre o futuro dos negros na América, do racismo e das repressões policiais torna-se extremamente forte e somente comparável à cena da morte da encarnação do Jesus Mexicano, morto ironicamente por milícias cristãs atacando imigrantes ilegais nas margens do Rio Grande.




Technical Boy - o troll de internet e a modernidade




Uma das grandes evoluções na humanidade como um todo hoje foi a internet - e na série, essa tecnologia foi encarnada no Novo Deus, o Technical Boy (Bruce Langey), e hoje a internet tem se tornado cada vez mais um lugar cheio de ódio e violência, embora um deus jovem em comparação com os Velhos Deuses, o poder sobre sete bilhões de pessoas no planeta desnivela a balança entre os Novos Deuses, que recebem seus sacrifícios pelas horas em que as pessoas passam em frente à telas de televisão ou computador ou no sistema de globalização e mercado em que estamos todos presos.

As aparições da Mídia, interpretada pela maravilhosa Gillian Anderson, também demonstram toda esta faceta de personas famosas de filmes ou da TV pelas quais as pessoas tem enorme apreço e admiração que estão escondendo um lado muito mais violento, um lado que calmamente bombardearia a Coréia do Norte inteira sem motivos militares, mas apenas para acalmar Wednesday e evitar uma guerra.



Oh Pretty Thing You...

A fotografia da série é muito bem executada, Bryan Fuller traz de volta quase toda a produção que ele usou em Hannibal, desta vez misturando uma palheta sombria e acinzentada com a loucura de néons de motéis beira de estrada, luzes celestiais e muito sangue - muito e muito sangue - que muitas vezes se justifica pela aura de estranheza que acompanha a série toda.




Essa diferenciação na palheta de cores também aparece na separação de núcleos, temos o grupo Mad Sweeney, Laura e Salim andando por regiões rurais e verdes dos Estados Unidos e temos Shadow e Wednesday muitas vezes chegando à cidadezinhas acinzentadas. 

Porém, mais do que isso, American Gods é uma adaptação que tem sido bastante fiel ao estilo narrativo de Gaiman, além de abrir discussões pertinentes sobre o "american way of life" e sobre a frialdade que a modernidade carrega, os Novos Deuses enxergam a existência da crença como um mercado e os Velhos Deuses são muito humanos, cheios de qualidades e vícios. No meio dessa guerra, temos Shadow, alguém que por algum motivo teve seu destino moldado pelos deuses, por qual motivo? Provavelmente só saberemos quando acontecer essa batalha, que sendo vencida ou perdida, será gloriosa.

A segunda temporada de American Gods ainda não tem previsão de estreia, mas já está confirmada, por enquanto só podemos esperar a próxima parte da história e "wow, it does sounds good already".




Créditos


Texto: Felipe Lima
Revisão: Felipe Lima

O artigo apresenta as opiniões e ideias do autor do texto e não do site Co-op Geeks.

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