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Felipe Cavalcante 3.2.18


A Forma da Água é o novo filme do aclamado diretor Guillermo Del Toro, que também dirigiu O Labirinto do Fauno, A Espinha do Diabo, Hellboy e Pacific Rim, e apenas posso começar essa crítica dizendo que esta obra é um filme sobre um monstro, um filme de amor e, também, um filme de amor aos monstros.


Com toda certeza esse é um daqueles filmes que mistura vários elementos já batidos e formulaicos de Hollywood, mas que acaba criando uma história nova, um conto de fadas moderno. A trama é bem simples: na década de 60, Elisa Esposito (Sally Hawkins), é uma moça muda que trabalha como faxineira num laboratório governamental e mora sozinha em seu apartamento em cima de um decadente e velho cinema. Mas ela não é apenas isso, ela é uma princesa sem voz ou, pelo menos nessa história, a princesa é uma mulher que nunca é vista pelos outros ao seu redor, exceto, talvez, pelos seus dois amigos: Giles (Richard Jenkins), um homem gay não-assumido velho e solitário; e Zelda (Octavia Spencer), uma também faxineira, negra, amigável e faladora.


A história, porém, começa realmente quando Elisa descobre uma criatura que está, agora, sendo mantida no laboratório para testes. Elisa mantém uma amizade com o Homem Anfíbio (Doug Jones), até que descobre que ele será dissecado para servir de teste para um projeto ultrassecreto do governo e decide resgatá-lo. Contudo, essa amizade parecer ser um sentimento muito mais forte entre os dois, pois ela parece estar se apaixonando pelo monstro.



O filme é uma revisão do conto A Bela e a Fera e de O Monstro da Lagoa Negra com a torção própria para acrescentar, ele todo parece possuir dentro de si as influências de Del Toro como cineasta, o amor por monstros e criaturas, filmes antigos, filmes épicos bíblicos, contos de fadas sombrios e uma mistura do fantástico com o real em momentos de tensão histórica. Se n'O Labirinto do Fauno tínhamos a Guerra Civil Espanhola, aqui temos a Guerra Fria, e a disputa de poder entre os americanos e os soviéticos é uma das tramas paralelas do filme que se colocam como uma barreira entre o amor de Elisa com a criatura.

O relacionamento dos dois é construído de maneira rápida, porém eficaz. A ligação que ambos possuem se faz nas semelhanças entre duas pessoas que são incapazes de se expressar na sua totalidade e são vistos como menos que gente pela sociedade. E o próprio monstro é incrível! A criatura, vivida por Doug Jones, possui uma fisicalidade e beleza única. A delicadeza de Del Toro e seu conhecimento em histórias e lendas se mostra dentro da construção do Homem Anfíbio, que possui um lado selvagem, animalesco e instintivo, mas, também, uma curiosidade, doçura e bondade, dependendo de quem esteja ao seu lado. A maquiagem e as cores do personagem são incríveis. 

Sally Hawkins faz um excelente trabalho ao capturar uma espécie de inocência e compaixão, misturados com determinação, insolência e não-submissão, durante todo o filme, sem pronunciar uma palavra sequer, servindo de contraste para o grande vilão do filme: Strickland, cujo toxicidade masculina do personagem é assustadora e o trabalho do ator, Michael Shannon, de tornar real uma amálgama caricata de uma sociedade normativa é muito eficaz.



Outros personagens do filme recebem seus momentos de destaque, Giles, interpretado por Jenkins, mostra uma paternidade calorosa e afeição por Elisa ao mesmo tempo que uma tristeza e melancolia profunda por sua solidão. O Dr. Hoffstetler apresenta um grande dilema entre o seu dever e sua própria segurança e o seu amor pela ciência e compaixão. E apesar do pouco tempo de tela, Octavia Spencer mostra-se não apenas uma companheira engraçada, mas também leal e sincera.


A fotografia do filme com certeza é um dos maiores acertos e algo em que Del Toro nunca decepciona. Os jogos de câmera e ângulos usados servem tanto para criar a atmosfera perfeita para que se aceite o fantástico no filme, como também criar uma pintura de história. O filme usa muitos tons de verde que remetem à água e ao mundo submarino, igualmente no figurino de Elisa que, ao decorrer do filme, vai tornando-se vermelho, refletindo ao amor e paixão que vai se desenvolvendo ao longo do enredo.


Por fim, talvez os defeitos mais visíveis do filme sejam a sua previsibilidade, que, de certo modo, criam um final ligeiramente ambíguo, e a falta de tempo para desenvolver mais seus personagens que, apesar de muito humanos, ainda são uma representação um pouco elementar de um dilema social complexo. Mas, ainda assim, A Forma na Água é uma obra sobre monstros, sejam criaturas ou monstros humanos, uma carta aos filmes antigos e histórias esquecidas e sem voz, e, como o próprio diretor disse, um filme sobre amor: "A água é como o amor, não tem uma forma. Ela toma a forma de tudo o que ela habita. Ela é o elemento mais poderoso de todo o universo. É gentil, e flexível, mas quebra todas a barreiras".




Créditos

Texto: Felipe Lima
Revisão: Felipe Lima e Bruno Bolner

O artigo apresenta as opiniões do autor do texto e não do site Co-op Geeks.

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