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» » » » » » » O mérito de 3%: primeira série brasileira da Netflix


Valentina Gaztañaga 24.7.19


Quase 5 anos depois do lançamento do piloto no YouTube, veio o anúncio da primeira série brasileira produzida pela Netflix: 3%.

A produção até recebeu incentivos financeiros de políticas públicas nacionais, ainda que o piloto tenha um enredo ligeiramente diferente, mas foi sobre os ombros da gigante do streaming de vídeo que conseguiu ter fôlego para chegar à terceira temporada.

O principal argumento de 3% é mostrar os diferentes vieses da construção do conceito de "mérito". O que é mérito? Ele é realmente possível ou não? Até que ponto é possível justificar a desigualdade social através dele? Essas e outras questões caminham pelas três temporadas, cada uma dando uma oportunidade de fala para uma camada diferente da sociedade.

A série recebeu críticas negativas sobre uma possível falha na direção de elenco pela primeira temporada, por outro lado a recepção do enredo e a avaliação da direção de César Charlone foram positivas. Faltava criar um laço emocional com os personagens e diluir uma certa rigidez no desenvolvimento do texto (“não é exatamente assim que a gente fala”, era a principal estranheza).

Na segunda temporada, isso foi corrigido com a chegada da nova personagem Glória (Cynthia Senek) e o aprofundamento dos dramas individuais de Fernando (Michel Gomes), Marco (Rafael Lozano), Joana (Vaneza Oliveira), Rafael (Rodolfo Valente) e Michele (Bianca Comparato).

A terceira temporada estreou em abril de 2019 e concluiu o primeiro arco da história. Há ainda mais uma temporada para o final da série. No final da maratona, é inevitável pensar: qual é o mérito de 3%? Let’s found out, partners!

ATENÇÃO! Este artigo possui conteúdo que pode ser considerado SPOILER das três temporadas de 3%. Leia por sua conta em risco.

“Você merece!”, a frase que incentiva a criação do merecimento


César Charlone, responsável pela fotografia de Cidade de Deus e diretor de 3%, ajudou a reformular a imagem do cinema contemporâneo brasileiro lá fora. O olhar do diretor criou um recorte do que é a desigualdade social no país, deu a ele uma textura, um conjunto de cores e uma tradução visual das possíveis posturas ideológicas adotadas pelos moradores. Em última instância, reuniu embaixo de um guarda-chuva estético um conceito de "o que é ser brasileiro".

Diferente de Cidade de Deus, a série não tem a pretensão de criar uma imagem nacional (ainda que seja uma tentação), mas sim passar ao público uma possibilidade de tradução da desigualdade social. A fotografia, o figurino e o enredo formam seu eixo de sustentação. Uma rede de diálogos é formada entre elementos visuais e verbais para reforçar ainda mais a mensagem, por isso, não há uma preocupação em situar a série em uma região específica do Brasil.

O Continente, local onde 97% das pessoas estão sobrevivendo em um futuro pós apocalíptico, é sujo e violento e, ao mesmo tempo, revelador em seus detalhes. O destaque vai para o trabalho artístico com sucata e a criatividade do visual dos personagens, lembrando a riqueza do artesanato brasileiro principalmente na segunda e terceira temporadas.

Tramas e torções aparecem nas roupas dos moradores do Continente e da Concha, enquanto que no Maralto as vestes são mais funcionais e minimalistas (todos são igualmente merecedores no Maralto). A noção de “merecimento” (torcida sob vários pontos de vista) é colocada para o público como a raiz da meritocracia e exemplificada pela dinâmica do processo.

Ao atingir 20 anos, o jovem tem a ideia de que “o mundo lhe deve alguma coisa” e parte para o exame de habilidades físicas e morais proposto pelo regime político. Lá, tem seu discurso (a ideia que tem dele próprio e da vida) intencionalmente distorcido e estraçalhado pelo sistema. Talvez a ideia de “parecer diferente” só funcione quando você vive em um ambiente em que se acredita que alguns são merecedores e outros não.

Para passar no processo, instrumento de dominação instituído de maneira autoritária pelo Maralto, é preciso merecer, mostrar que o indivíduo tem valor para a alta sociedade destacando-se dos demais através das provas.

As provas têm o objetivo de selecionar o melhor candidato com base em critérios que dizem garantir a igualdade de condições de realização. Esse ponto vai ser retomado na terceira temporada, com a criação de um novo processo (na Concha), aumentando ainda mais a fragilidade da ideia de que todos partem do mesmo lugar para provar seu próprio merecimento ante a sociedade.

A ousadia da série está principalmente em brincar com a contradição em termos, quando um produto do capital (uma série da Netflix) é utilizado para criticar ele próprio. O Capitalismo, aliás, é excelente em transformar grupos ideológicos em produtos. Quem lembra do episódio Fifteen Million Merits, o segundo da primeira temporada de Black Mirror?

O surgimento de uma nova classe


A segunda temporada de 3% serve de trampolim para o questionamento do mérito, colocando em risco a imagem da meritocracia construída pelo Maralto com o auxílio das narrativas sociais no Continente. A religião, segundo a série, existe para reforçar a crença na justiça (quase divina) do processo. É nesta temporada também que a Causa ganha um antagonista de peso: a Milícia.

A primeira temporada termina com o sentimento de revanche dos eliminados do processo. Esse sentimento é utilizado como combustível pela Causa e pela Milícia para angariar novos adeptos. Tudo na sociedade de 3% parece funcionar com base na premissa do mérito: até mesmo grupos radicais realizam um processo para selecionar os melhores indivíduos.

Michele, a jovem protagonista da série, começa a desenvolver seu caminho para a liderança política entendendo melhor quem ela é e reconstituindo os fatos de seu passado, eliminando as farsas pelas quais teve sua ideia de mundo formada.

A entrada de Glória, como uma coadjuvante de destaque, fortaleceu a empatia com o público incrementando o caldo de dilemas morais e renovando a crença no processo, já que os demais personagens de uma maneira ou de outra já estavam lidando com a desilusão.

A participação especial do cantor Liniker com a canção Preciso Me Encontrar na segunda temporada (que teve 10 episódios, 2 a mais que as outras) estabeleceu um marco na formação da identidade dos personagens. A partir dali, ganharam mais confiança em suas atitudes e crenças de que estavam com “a razão”.


O final da segunda temporada e a revelação sobre o casal fundador do Maralto, inclusive sua justificativa de criação, ajudaram na formação de uma alternativa aos dois ambientes: surge a Concha como representação da Classe Média.

A partir daí, a série tenta encontrar um novo tom para abordar a desigualdade social dentro do recorte estético proposto escorregando em algumas falsas promessas, mas que ainda assim são coerentes com o enredo. Afinal, se existe uma isca, essa está mais no discurso que coloca a Classe Média como alternativa do que necessariamente na escolha da série em retratá-la.

Michele vai de rebelde revolucionária à líder autoritária, numa alusão clássica da jornada de líderes contrários ao regime que assumem o poder, em que para manter a ordem da conquista é preciso misturar posturas ditatoriais com a sensação de democracia.

“Não bastava um inimigo, agora a gente tem dois” e o lugar de fala de Joana


Outro ponto a favor da série é o desenvolvimento da personagem Joana. A jovem salta do individualismo da primeira temporada para o ativismo social com direito a lugar de fala na terceira temporada. Se ao assumir o poder, Michele tem os seus valores questionados e reconhece que é apenas “o extremo oposto”, Joana assume seus conflitos internos como sendo iguais aos de todos que ainda estão no Continente e se mantém cética em relação à Concha.

A conquista de segurança e bem-estar devem ser vividas por todos, os pequenos prazeres da classe média não iludem a jovem, que adota uma visão mais pragmática da Causa e mantém as pessoas focadas em uma única finalidade: o fim da desigualdade.

Joana quer destituir os meios de produção do Maralto, não apenas acabar com o controle sobre eles. Eliminando a tecnologia do mapa, todos teriam condições iguais para reconstruir suas vidas. Embora seja uma visão bem objetiva do problema, só refaz o trajeto por outra via. Será que os antigos moradores do Maralto aceitariam de bom grado a perda dos privilégios? O irmão de Michele parece demonstrar o contrário e levará este fanatismo às últimas consequências.

A médica Elisa viveu esse conflito. Apegada ao conforto e ao modo de vida do Maralto, mas sem condições morais de romper definitivamente com ideais humanistas, a personagem sinaliza uma crise de identidade (“eu não sei o que estou fazendo aqui”) que parece representar muito bem o conflito ético do profissional de saúde que tem dificuldades de assumir com coerência uma postura política. Uma crítica urgente da série às organizações médicas que fecham os olhos para os problemas de saúde pública do país.

A primeira temporada mostrou o Continente, a segunda o Maralto e a terceira a Concha. Com o arco completo e cada classe tendo seu momento, o público tem a impressão de que está tirando suas próprias conclusões quando a sabotagem da tenente Marcela é descoberta. 

Joana, que sempre viu a Concha como uma oportunidade de atingir fatalmente o Maralto, agora encontra respaldo na opinião dos moradores da nova comunidade que querem uma alternativa livre de controle. As decisões já não são tomadas em assembleias diretas. Tendo Michele como palavra final, a Concha ganha um conselho deliberativo que decide como serão as coisas dali em diante. E é aí que o público percebe o engano, “okay, eu já vi esse filme…”.

Essa caricatura da dialética descrita por Karl Marx utilizada como pano de fundo de um “objeto de entretenimento” concentra toda acidez diluída nos discursos de Joana, Michele, Marco e Glória, personagens-chave para o desenvolvimento do núcleo político da Concha.



O mérito de 3%, além de conseguir um espaço em um serviço mega gigante como a Netflix, está em não esconder que a busca pela igualdade social também é uma narrativa ideológica. No frigir dos ovos, existe o humano e a consciência de si como fenômeno ético e civilizatório. E se você ainda não leu o conto A Igreja do Diabo de Machado de Assis, fica a dica de leitura de apoio para entender melhor as contradições mostradas pela (e da) própria série.

As três temporadas da série 3% estão disponíveis na Netflix e a quarta e última temporada estreia em 2020. Apesar da lentidão dos processos de renovação, a rede de streaming, que já tinha anunciado que a série foi o produto de língua não inglesa mais visto nos EUA em sua primeira temporada, manteve o show no ar até o desfecho final da história. Mais um mérito para a produção brasileira.

Créditos:

Texto: Valentina Gaztañaga
Revisão e imagens: Bruno Bolner


O texto apresenta as opiniões do autor do artigo e não do site Co-op Geeks.

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