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Valentina Gaztañaga 22.8.19


Santa Catarina teve sua primeira vez! Nunca antes da história desta província tínhamos tido um festival de cinema dedicado ao gênero de horror, acredita? O coletivo Sangra Catarina tratou de corrigir a blasfêmia colocando a capital no mapa para a exibição de filmes independentes de horror. O 1º Floripa Que Horror! ocupou as telas do CIC (Centro Integrado de Cultura) entre os dias 16 e 18 de agosto de 2019 com longas, curtas e trailers nacionais e estrangeiros sob a curadoria de Andrey Lehnemann e produção de Pedro MC, membro também do Cinemática.

Na programação, dois longas estrangeiros e um nacional que ganhou destaque também no circuito comercial - A Mata Negra, do diretor Rodrigo Aragão. Foram exibidos também 8 curtas metragem na noite de sexta. 

A Casa de Suor e Lágrimas, filmão que abriu o festival


O filme de estreia, o longa espanhol Casa de Sudor y Lagrimas, da diretora Sonia Escolano, usou e abusou da sinestesia ao acompanhar o desfecho da convivência de um grupo pequeno de pessoas em uma espécie de cativeiro religioso. Embora a temática gire em torno do fanatismo religioso (e talvez isso conte como elemento sobrenatural), o filme enquadra muito bem o terror psicológico embaixo de uma trama complexa de abusos, farsas e medos com uma fotografia claustrofóbica e atuações envolventes. A atriz Alzira Gómez que interpreta a personagem Ella, a líder religiosa da seita, tem a trajetória mais interessante. Logo na primeira cena, Ella aparece "transmitindo" uma mensagem supostamente de Maria entre gemidos e urros de êxtase religioso. No arco final da narrativa, a personagem tem o brilhante diálogo no telefone com quem parece ser seu superior e revela não ser mais capaz de ser contactada pela entidade (uma referência a Anorgasmia).

A trama usa de cenas que despertam dor, prazer, angústia, horror, terror, medo, confusão, raiva, riso, criando uma espécie de duplo com as emoções do público. Daí a opinião de que a experiência de assistir o filme em uma sala de cinema sem dúvida eleva seu efeito de sentido. Quando começamos a nos sentir confortáveis com um tipo de emoção, o filme parece absorver aquele tédio e oferece uma mudança de ritmo no seu enredo. Sim, ritmo e posição, a linguagem do filme é bastante sensual alternando emoções (que poderiam ser interpretadas como posições sexuais), criando uma conexão bastante erótica com o público. Mais ou menos na metade do filme, somos surpreendidos com uma cena de sexo propositalmente colocada (olha o ritmo da narrativa aí) provocando estranheza no público ao perceber que a pessoa sentada ao lado estava tão excitada quanto você. Geralmente, esse tipo de experiência temos em espaços privados, com pessoas íntimas e não em público com desconhecidos. A discussão entre privado/público, fechado/aberto e hipocrisia/verdade permeia todo o filme, por isso entendo que esta cena teve um propósito maior na narrativa.

Na leitura que fiz, o filme é uma alegoria de terror psicológico com cenas de gore para levar o público a questionar se a religião, na verdade, quer criar um espaço autorizado para que seja possível sentir prazer sem pecado, mas que acaba falhando violentamente como possibilidade. Também entendi que o prazer (e a ausência dele) atua como força que move as relações humanas. Quem está procurando uma obra para analisar no TCC, vai na fé, com o perdão do trocadilho. O filme dialoga muito bem com questões contemporâneas, principalmente para debater o que está por trás de ideias extremistas.

Sexta-feira, a noite dos curtas


Na segunda noite do festival foram exibidos 8 curtas metragem de diferentes regiões do país. A seleção se importou em pinçar representantes com diferentes leituras do gênero, priorizando a diversidade no caleidoscópio do horror nacional. 

Os filmes foram apresentados nesta sequência (sinopses dos organizadores):

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ALMOFADA DE PENAS
Dir.: Joseph Specker Nys, 12 min, SC/Brasil
Após a lua-de-mel, Alicia começa a sofrer de uma doença inexplicável. Enquanto mergulha numa realidade repleta de alucinações monstruosas, seu marido observa com indiferença.

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UTERUS
Dir.: Pedro Antoniutti, 15 min., RS/Brasil
Eventos perturbadores - todos circunscritos no mesmo local - transformam as vidas de quatro pessoas.

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O BOSQUE DOS SONÂMBULOS
Dir.: Matheus Marchetti, 21 min., SP/Brasil
Hóspedes de um antigo hotel caem sob um feitiço noturno. Vozes os convidam para dançar bosque adentro, num baile de sombras onde poderão vivenciar os seus desejos mais secretos.

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DEAD TEENAGER SÉANCE (VENCEDOR DO FESTIVAL)
Dir.: Dante Vescio, Rodrigo Gasparini, 21 min., Brasil
No limbo, um grupo de adolescentes mortos decide se vingar de seu assassino invocando-o para o seu mundo.

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POP RITUAL
Dir.: Mozart Freire, 20 min., CE/Brasil
Padre João prende um vampiro e o visita para um regime de experimentos científicos e estranhezas - que se tornam uma alucinada relação entre erotismo e o sobrenatural.


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NECRÓPOLIS
Dir. Ítalo Oliveira, 15 min. BA/Brasil.
A história se passa na cidade fictícia de Mucunã e gira em torno de Milena (Ruthe Maciel), sobrevivente solitária que vive no semiárido nordestino em um mundo pós-apocalíptico. O enredo da história se constrói a partir de um fungo que contaminou a população mundial, transformando as pessoas em zumbis. A partir da imagem de Milena, a trama busca enfatizar a força da mulher sertaneja e da mulher negra para enfrentar as dificuldades e sobreviver.

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ONI
Dir.: Diogo Hayashi, 18 min., SP/Brasil
A fazenda não é mais fértil. Tentando compreender o problema, o botânico Ichiro acabará chamando a atenção de seres há muito esquecidos.

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COVA HUMANA
Dir. Joel Caetano. 10 min, SP/Brasil.
Ganhador do último Curta-Con, um homem enterrou sua dor profundamente, mas ela insiste em voltar.

Poderia escrever uma crítica para cada curta (deixem nos comentários se vocês querem saber mais). Foi uma noite bem interessante! Meu preferido foi o Almofada de Penas, a animação em stop motion baseada no conto homônimo de Carlos Quiroga. 

A vertente do Queer Horror contou com dois representantes: o intrigante Pop Ritual e o musical O Bosque dos Sonâmbulos. Em Pop Ritual, a dinâmica entre os personagens principais é interessante, estamos acostumados a histórias em que o sagrado se "apaixona" pelo profano, a reviravolta é estar diante de uma reciprocidade repleta de simbolismos. O visual punk anos 1980 do vampiro também é muito bem feito. O filme não tem diálogos verbais, mas as entrelinhas dizem bastante. A linguagem onírica aparece dentro e fora do curta em uma espécie de pesadelo insistente. A ideia de que os extremos se alimentam um do outro tem uma leitura política bastante atual.

Para quem ainda não conhece, o Queer Horror é um subgênero do Horror que coloca as questões LGBT+ no eixo da narrativa. É conhecido também como uma vertente de resistência e de cunho político.

A Mata Negra, o longa nacional de sábado




O festival exibiu o longa A Mata Negra do diretor Rodrigo Aragão. Confira a sinopse:

Em uma floresta do interior do Brasil, a jovem Clara vê sua vida mudar para sempre quando encontra o Livro Perdido de Cipriano, cuja magia, além de conceder poder e riqueza a quem o possui, é capaz de libertar uma terrível maldição sobre a terra.

O filme trabalha bem a junção do local e do externo, conectando concepções distintas de magia e mostrando que temos um potencial mitológico imenso a ser explorado pelo cinema nacional.

Noite de encerramento: Mas que horror, Floripa!


Como nem tudo são flores no cemitério, a última noite do festival terminou agridoce. Pude rever o hilário DEAD TEENAGER SÉANCE, que acabou levando o prêmio de melhor filme desta edição, e o nem tão bom assim Lifechanger (2018).

O longa canadense, que já levou alguns prêmios em festivais pelo mundo, fez uma excelente junção entre efeitos visuais digitais e práticos. A cena final é realmente apreensiva e usa o gore de uma maneira bastante poética, lembrando uma obra celebrada pela crítica, do pintor Salvador Dalí.

A narrativa, no entanto, decepciona pelo teor moralizante e pelos diálogos mal construídos. Uma fábula de horror, é como resumiria o filme. Diferente de A Casa de Suor e Lágrimas, o filme é bastante raso ao explorar em seus diálogos temas como superação de traumas e amadurecimento. A premissa do personagem folclórico troca-peles é bem interessante, mas o roteiro não entrega. Pontos positivos? A participação do modelo e ator Jack Foley e a maquiagem.

Resumo do festival

Com 3 longas e 8 curtas, Santa Catarina enfim pôde gozar pela primeira vez de um festival todinho dedicado ao horror. Os filmes, inéditos no estado, instigaram a curiosidade do público para o cinema fora do mainstream americano. A organização do festival teve seus pontos críticos, acredito que poderia ter inserções mais interessantes e criar um engajamento maior com o público, mas o pioneirismo, a ousadia e a entrada franca contornaram os contratempos desta primeira edição. Floripa é uma capital de difícil entrada para inovação nas expressões artísticas de modo geral, toda intervenção que subverta a mesmice provinciana tem seu destaque garantido no coração. 


Such a tasty heart <3

Créditos

Texto: Valentina Gaztañaga
Revisão: Bruno Bolner

O texto apresenta as opiniões do autor do artigo e não do site Co-op Geeks.

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