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» » » » » » » La Casa de Papel: por que o sarcasmo faz tanto sucesso?


Valentina Gaztañaga 13.8.19


Não há maneira de começar este texto sobre La Casa de Papel se não por uma piada, ruim, claro. Sabe por que os espanhóis não conseguem terminar uma denúncia? Te lo digo yo: porque se rien antes.

La Casa de Papel mostra ao público estrangeiro uma refrescante maneira de contar uma história de assalto. A maioria de nós está adaptada às produções americanas com diálogos de fácil compreensão, humor superficial e "panos quentes". Afinal, são produtos que precisam se “conectar” com pessoas de diversas culturas e idiomas.

Se no humor americano encontramos estruturas como "isto é uma piada, podem rir agora", principalmente no cinema e nas séries de TV, nas produções de outros países como Inglaterra e Espanha somos surpreendidos pelo emprego do "humor inteligente" ou "sarcasmo", como é possível notar se você assistir aos episódios da série The Office primeiro na versão britânica e depois na versão americana.

Por isso, arrisco a dizer que muita gente anda por aí rindo com a série La Casa de Papel sem perceber que ela estava o tempo todo rindo também, só que da gente mesmo.

Venga, venga, não vamos discutir uma piada, ou vamos? Let’s go for a walk, partners!

Do que se trata a série?


O enredo de LCDP é bastante simples: um grupo de pessoas sem perspectiva na vida, desajustadas socialmente e que aspiram servir para um propósito anti-alienação da sociedade são convidadas por um homem misterioso autodenominado Professor para assaltar a Casa de Moeda e Timbre da Espanha executando um audacioso plano. Menos de três anos depois, o grupo atende ao novo chamado do Professor para voltar a atacar o Estado, agora invadindo o Banco Nacional da Espanha, tendo como principal objetivo recuperar um dos membros da "família" capturado e torturado sob ordens da polícia. A terceira parte da série termina com um desfecho interessante sobre a guerra contra o Estado e a queda do mito da Pátria Mãe. A próxima temporada deverá mostrar como será a nova fuga e qual será o fim dos personagens.

O jogo político dentro do humor

A série costura bem diversas referências às produções americanas, principalmente ao filme V de Vingança lançado em 2006, inspirado na HQ de Alan Moore e David Lloyd publicada nos EUA em 1988. Talvez você não lembre, mas esta mesma história inspirou diversas pessoas no mundo real, do grupo hacker Anonymous a outros crimes.
Outra referência visual da série é o visual de Tokio semelhante ao de Mathilda, personagem interpretada por Natalie Portman no filme O Profissional, de 1994.
A trama de inspirar a sociedade à agir radicalmente para se livrar da opressão é conduzida com muito sarcasmo pelos criadores da série. A ideia central do primeiro assalto é roubar o tempo para produzir dinheiro, e é exatamente o que a série faz. Afinal, enquanto estamos ali mortinhos de curiosidade sobre o que vai acontecer a seguir, tem gente ganhando dinheiro com isso, time is money. Fomos roubados! Roubaram nosso tempo, e se pararmos para pensar mais um pouco, não é a primeira vez, certo?

O jogo político amplia o espectro do humor da série, podemos achar engraçadíssima a gargalhada de Denver, mas também achamos graça de que o personagem mais "malvado" se chame Berlim, e que ele também seja machista e soberbo, como a aristocracia europeia é. O personagem também faz uma referência a Leon, o assassino de aluguel do filme O Profissional.

Mas Berlim ao contrário de Leon tinha regras flexíveis, levando uma refém para seu sacrifício final, faz sua escolha pela glória no lugar de uma cama de hospital. Mas você ainda pode escolher acreditar que Berlim foi altruísta, mesmo que os fatos contradigam isso. Este é o poder e a grande mensagem do personagem.

O jeito como a investigadora Raquel amarra os cabelos para se concentrar é uma referência à Violet Baudelaire, de Desventuras em Série, mas o jeito como a polícia está dividida entre poupar vidas civis e encerrar o assalto da maneira mais sangrenta possível faz referência à vida como ela é de fato. O enredo de LCDP se baseia neste jogo de tensões, incorporando conexões com fantasia e realidade, misturando escândalos reais com ficção, manipulando o espectador. Experimentamos a mesma sensação quando consumimos Fake News - e com que frequência vemos Fake News por aí? All the time, partners

E se você ainda não viu o filme Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock, talvez você não saiba do que se trata LCDP.

Rir de coisas difíceis é inteligente


Mas, afinal, o que é sarcasmo? Sarcasmo é uma palavra que vem do Grego, e se vem de lá, então está entre nós há muito tempo. O sarcasmo estava presente nas peças de teatro antigas e faz parte até hoje das expressões artísticas, principalmente as que incluem política e economia na discussão. É uma forma de humor tida como intelectualmente estimulante que, além do insulto, propõe a necessidade de se olhar para algum fenômeno específico mostrando a fragilidade de nossas crenças e valores. No caso de LCDP, se trata do papel do Estado e seus interesses dissociados dos interesses da sociedade civil.

Na primeira e segunda parte da série temos a crítica aos lucros exorbitantes dos Bancos e sua influência na economia em países como a Espanha. Já na terceira parte, a série estabelece outras conexões com a realidade, como a influência de organizações políticas internacionais em conflitos internos, o abuso de autoridade do Estado pela tortura e outros atos ilícitos e a comoção popular que parece ser manipulada por "ideologias", pela mídia e pelas tratativas do Estado.

Uma leitura possível que exemplifica bem o sarcasmo de LCDP é atribuir à personagem da investigadora Sierra a representação do Estado como Pátria Mãe, naquele jogo autoritário conhecido de que a mão que dá é a mesma que tira. Só que isso feito de uma forma para causar deslocamento de sentido: a personagem é caracterizada por seus pirulitos e balas, com um barrigão de grávida, fumando cigarros, entre outras contravenções do "politicamente correto". É ela que decide desmantelar a família pelo coração, usando a fraqueza do inimigo como contragolpe, exatamente o que propôs o Professor ao explicar para o grupo como seria o segundo assalto: o plano tinha como base a filosofia do Ai Ki Do, usar a força do inimigo contra ele próprio. 

Outra crítica mordaz de La Casa De Papel ao Estado é sobre seu poderio, nenhuma outra instituição ou organização tem tanto poder, dinheiro e influência quanto o Governo, de modo que todo ato de violência social contém uma denúncia de permissividade, ou seja, de algum modo a violência beneficia a manutenção desses privilégios. Nas bases do pensamento liberal encontramos três justificativas para a existência do Estado: garantir o direito à propriedade, à justiça e à segurança do cidadão. Todo país capitalista vive este conflito entre o que a teoria diz e as exigências da população pela manutenção do bem-estar social.

Em uma cena no mosteiro, já na terceira parte, o Professor mostra vídeos de pessoas em atos de reivindicação violenta inspiradas pelos Dalís, usando suas máscaras e macacões. À primeira vista, sem entender o sarcasmo, somos levados a acreditar que o bando possui um propósito político forte capaz de chacoalhar as estruturas da Espanha (e do mundo!).
Além de V de Vingança, a série faz referência a diversos elementos visuais de Breaking Bad.
Mas a mesma série mostrou que mesmo com milhões de euros, anos de planejamento e pessoas especializadas, é tremendamente difícil fazer com que a máscara do Estado caia. Será mesmo que pedras atiradas por pessoas completamente movidas pela adrenalina terão algum efeito? Será que a população está realmente desperta e livre da alienação ao agir por impulso a partir de uma conexão emocional com uma causa planejada?

Não ter consciência de que a própria ação subversiva vai ser cooptada pelos interesses mais sombrios do sistema é mesmo uma grande ingenuidade. E parece ser essa a conclusão que a série chega ao tratar de escândalos políticos reais dentro do enredo, como o dinheiro pago às autoridades marroquinas para impedir a chegada de imigrantes pela fronteira sul da Espanha junto com o financiamento de outros países europeus. É no momento em que a inspetora tem a brilhante ideia de confundir a mídia e os cidadãos misturando fatos forjados com verdadeiros que a série faz a mesma coisa, colocando denúncias reais na cena.

Para saber mais sobre este assunto indico os episódios s01e12 e s02e09 da série Salvados, do jornalista espanhol Jordi Évole, também disponível na Netflix.

Do escracho à mudez social


Se LCDP traz tantas críticas sociais interessantes e um enredo sarcástico que põe luz em vários problemas políticos da Espanha, por que mesmo assim parece que os problemas continuam existindo lá (e em qualquer outro país do mundo)? E mais, por que somos impelidos a gostar tanto da série pela ginástica intelectual que nos provoca e minutos depois olhamos para nossa realidade com extrema preguiça de mudar qualquer coisa?

No pano de fundo da série, também está a grande crítica ao comodismo da sociedade: sua parte no pacto social é fechar os olhos enquanto privilégios mínimos sejam garantidos. Parece algo que Joana, personagem da série brasileira 3%, também questionaria. Em uma cena da terceira parte, a inspetora Sierra afirma: "por essa quantia de dinheiro qualquer espanhol venderia sua própria mãe!". A série traz esta máxima anti-capitalista, a de que o dinheiro corrompe, para dentro de um produto. E é esta a dinâmica adotada pelo Capital, qualquer ideia é uma ponte de conexão emocional com os indivíduos, uma vez "enganchadas" as pessoas entregam seu tempo de bom grado.

Enquanto LCDP insiste em mostrar o riso, o deboche e o insulto, ao terminarmos a terceira parte e voltarmos a incorporar nossos corpos reais, impera-se o silêncio, a falta de atitude, qualquer desculpa para manter as coisas como estão, porque alterá-las levaria uma vida ou gerações. E é este o ponto: mudar a sociedade leva gerações, não é algo imediato como rolar o feed do Instagram ou indolor como alterar o rosto usando filtros fofinhos.

O sarcasmo vende porque no fundo temos necessidade de justificar nossos fracassos. Ao rir de tudo isso obtemos uma sensação de prazer a partir da dor de nos reconhecermos imperfeitos. A grande mudança talvez surja da consciência de que fracasso/sucesso, perfeição/imperfeição são pares opostos que nos mantêm exatamente onde estamos. Quando nos propusermos uma saída que se desfaça dos extremos é bem possível que sejamos criadores de algo inédito.

Créditos

Texto: Valentina Gaztañaga
Revisão: Bruno Bolner

O texto apresenta as opiniões do autor do artigo e não do site Co-op Geeks.

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