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Felipe Cavalcante 7.9.19


It - A Coisa é um dos filmes de terror que mais fez sucesso nos últimos tempos e a segunda parte da adaptação do enorme e aclamado livro do autor Stephen King está chegando agora nos cinemas, contudo, essa não foi a primeira vez que se tentou adaptar a obra de King nas telas do cinema numa versão mais modernizada. Desde que a obra ganhou mais popularidade por causa da minissérie estrelada por Tim Curry várias vezes se ouviram rumores sobre uma adaptação do filme pro cinema, e a mais controversa e que acabou gerando o filme dirigido por Andy Muschietti como nós o vimos foi a adaptação roteirizada e que seria dirigida por Cary Fukunaga, o diretor de Jane Eyrie, que produziu e dirigiu a primeira temporada da aclamada série da HBO True Detective e serviria de diretor para o Beasts of No Nation da Netflix, mas afinal porque um diretor tão renomado não continuou no projeto e dirigiu o remake de uma das obras mais famosas de Stephen King?
Vamos dar uma olhada na versão de It - A Coisa de Cary Fukunaga:


Você vai flutuar aqui...

A obra de King, o livro It foi adaptada pela primeira vez numa minissérie em 1990, exibida pelo canal ABC, estrelada por Tim Curry e dividida em duas partes. Inicialmente ela havia sido planejada como uma adaptação de oito horas dividida em quatro partes, porém eventualmente vários pequenos enredos menores do livro ou partes muito gráficas foram omitidos e a adaptação ficou da maneira que conhecemos até hoje. Contudo, como em muitas adaptações de Stephen King, os fãs ficaram bastante desejosos de uma adaptação mais fiel à história do livro e que utilizasse dos novos efeitos especiais para trazer o palhaço Pennywise de volta à vida...




Desde 2009 a Warner Bros. que então detinha os direitos de adaptação do livro queria fazer um remake do livro, tendo entre as suas opções fazer um enorme filme de três horas, uma série de filmes ou apenas dividir em duas partes. Em torno de 2012, se iniciaram as conversas entre o estúdio e o diretor Fukunaga para que essa adaptação acontecesse, foi em torno de junho de 2014 com a aclamação da primeira temporada de True Detective que os rumores foram confirmados e anunciados por diversos sites de notícias que a adaptação do livro de Stephen King estaria prestes a acontecer.
Nos planos originais, Fukunaga decidiu que faria adaptação em duas partes: a primeira focando nas crianças do Clube dos Perdedores (Beverly Marsh, Stan Uris, Eddie Kapsbrak, Richie Tozier, Ben Hanscom, Mike Hanlon e Bill Denbrough) lutando contra a figura de Pennywise e a segunda parte traria de volta os personagens já adultos, tendo de confrontar novamente os seus medos. 


A primeira escolha para interpretar o palhaço Pennywise seria o ator Ben Mendelsohn (das séries Bloodline, Animal Kingdom), contudo, devido a problemas na agenda do ator ele não ficou com o papel. Acabou que o papel de Pennywise ficou nas mãos do jovem ator Will Poulter, que interpretaria o Palhaço Demoníaco, e o papel de Bill Denbrough ficaria o Ty Simpkins, o garoto Harley de Homem de Ferro 3. Assim que a procura pelo elenco começou Fukunaga e Chase Palmer estavam trabalhando furiosamente num roteiro para o filme, e a primeira versão do roteiro ficou pronta em meados de 2014...

A versão do roteiro de 2014...


O primeiro roteiro foi escrito por Cary Fukunaga e Chase Palmer em 2014, contudo, logo no esboço havia um potencial de desagradar os executivos da Warner devido a muitas cenas gráficas e sexuais envolvendo os personagens do Clube dos Perdedores, na verdade há diversos relatos de pais de atores que se sentiram desconfortáveis ao lerem o primeiro script.
O roteiro inicia em Derry, Maine, em 1988, mais ou menos como no filme de 2017, mas dentre alguns detalhes perturbadores no script inicial haveriam cenas de tom sexual com a personagem Beverly Marsh, de onze anos, que nos livros tem um relacionamento abusivo com o seu pai Alvin Marsh, porém na primeira versão isso seria levado para um extremo. Segundo os relatos haveriam cenas em que "o personagem do pai iria mais longe, ele beijaria o estômago dela, e enfiaria as mãos debaixo da saia, e haveria uma cena onde ela diz que foi estuprada por várias pessoas por outro personagem".
Além disso haveriam outras cenas grotescas, uma delas incluindo o valentão Henry Bowers usando sexualmente uma ovelha e dentre elas outra relacionada ao arco de um dos personagens, o menino judeu Stan Uris, no seu primeiro encontro com Pennywise, que ao contrário do livro original, não tomaria a forma de monstros de filmes antigos ou de medos mais concretos como um bicho-papão, mas sim, se transformaria nos medos mais abstratos do Clube dos Perdedores, no caso de Stan, o medo de sua sexualidade.
Na cena, Stan desceria para um banheiro nos fundos da sinagoga do seu pai, se preparando para o seu Bar Mitzvah, quando ele encontraria uma mulher nua numa banheira, que se ofereceria para ele, mas depois começaria a apodrecer e persegui-lo. 
Outra coisa interessante, porém desnecessária foi a mudança feita em diversos personagens: Henry Bowers se torna Travis Bowers nessa versão e Bill Denbrough também tem o nome mudado para Will Denbrough, além de Richie Tozier, que vira Richie Goldfarb, e é altamente implicado ser bissexual nessa versão.
E finalmente, uma das grandes mudanças e uma aparente inspiração em H. P. Lovecraft, ao contrário do livro original, a forma verdadeira de Pennywise não é de uma criatura aracnídea, mas na verdade o confronto final acontece de outra maneira: o Clube dos Perdedores é perseguido por Travis e os outros valentões dentro da mansão na Rua Neilbolt, todos acabam se perdendo dentro da mansão e o grupo de Travis acaba tropeçando numa espécie de saco amniótico cheio de aranhas que se rompe e que os atacam, enquanto isso o Clube dos Perdedores acaba achando um lago onde uma cachoeira deságua de cabeça para baixo. 


Eles mergulham nesse lago para confrontar Pennywise e veem a verdadeira forma da Coisa: uma estrela-do-mar, uma enorme criatura com tentáculos e olhos brilhantes que no final é derrotada com um spray e um isqueiro. Depois que os Perdedores derrotam Pennywise eles seguem mais ou menos os mesmos destinos do filme de 2017, porém Fukunaga e Palmer escreveram um segundo roteiro logo depois...

A versão do roteiro de 2015...


Depois do roteiro problemático e estranho de Fukunaga e Palmer, outro roteiro foi escrito. Nessa versão, contudo, muitas coisas foram reescritas e desenvolvidas de maneira diferente, dessa vez somos introduzidos novamente ao personagem Will (Bill) Denbrough, porém, ao contrário do início do livro, Georgie simplesmente desaparece sem nenhum rastro, algo que adiciona bastante ao personagem de Bill, dando-lhe uma razão para acreditar que seu irmão possa ainda estar vivo em algum lugar. O Clube dos Perdedores acaba sendo reduzido de sete para seis, pois Stan se torna um peixe dourado, que é o mascote das crianças, porém Richie acaba absorvendo os traços da sua personalidade, judeu e bissexual, ainda com o sobrenome Goldfarbb.
Nessa versão, Beverly sofre com bullying das garotas da escola que a acusam de ser promíscua, a parte sexual de sua relação com o seu pai é reduzida ou simplificada para ser bastante implícita, mas permanecem alguns diálogos assustadores, e em uma cena adicional Pennywise deixa Alvin Marsh viver para que ele cresça e se torne o futuro medo de Beverly.
Mike Hanlon, porém, sofre bastante nessa versão, toda o backstory dele viver em uma fazenda com o avô Leeroy Hanlon e o preconceito que ele sofre com Bowers é alterado para ele ser o neto de um dono de uma hamburgueria em Derry e não levar desaforo para casa. Contudo, esse roteiro apresenta uma das cenas que se tornou mais famosas dentre as da versão final de 2017, a cena em que Pennywise devora um bebê. 
O confronto final com Pennywise continua muito mais parecido com o do filme de 2017, exceto pela última cena, em que a câmera se aproxima de um bueiro na rua da frente da casa de Bill, entra dentro dos esgotos onde um balão vermelho solitário flutua, e estoura, deixando claro o retorno breve da Coisa...



He thrusts his fist against the posts...

Em 2015, Gary Dauberman que havia trabalhado no roteiro de Anabelle se juntou ao projeto da adaptação de It onde ele deveria fazer ajustes para que ele se torna-se mais próximo do livro de King, contudo, as mudanças de Dauberman criaram mais dificuldades nas relações entre o estúdio e Fukunaga. 
Entre as mudanças de Dauberman seriam incluídas muito mais referências à minissérie original de 1990 e até mesmo uma recriação da famosa cena da menina no triciclo que é atacada por Pennywise, onde a versão de Tim Curry apareceria brevemente, porém também as partes mais medonhas e violentas criadas por Fukunaga anteriormente tiveram seu tom assustador diminuído. E então, depois que quase quatro anos trabalhando no projeto, o diretor Cary Fukunaga saiu do projeto.



Em uma entrevista mais tarde Fukunaga disse: "Eu estava tentando fazer um longa de terror não convencional. Ele não se encaixava na fórmula em que o estúdio sabe o quanto pode gastar para ter um retorno nas bilheterias sem ofender a audiência padrão. [...] Foi pela liberdade criativa que nós trabalhamos. Eram dois filmes e eles não ligavam para isso. No primeiro, queria criar uma história de terror de alto nível com personagens reais. Eles não queriam personagens, e sim, arquétipos e vários sustos."

Por fim, a direção de A Coisa acabou indo para Andy Muschietti, que havia dirigido anteriormente o terror Mama. E o debate se a versão de Fukunaga seria ou não muito melhor do que o filme que nós acabamos conseguindo nunca será verdadeiramente resolvido, são versões bem diferentes de visões bem diferentes do livro de Stephen King. 



Felizmente para os fãs do autor o próximo filme It - Capítulo 2 parece estar bem comprometido a seguir mais a trama do livro do que ser uma adaptação mais livre da história. O filme estreia aqui no Brasil no dia 05 de setembro.


Créditos

Texto: Felipe Cavalcante
Revisão: Felipe Cavalcante e Bruno Bolner


O texto apresenta opiniões do autor do artigo e não do site Co-op Geeks.

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