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Felipe Cavalcante 13.10.19


Coringa, o novo filme da DC Comics, dirigido por Todd Phillips e protagonizado por Joaquin Phoenix esteve sempre cercado de polêmicas desde o seu anúncio. Se no começo havia o questionamento se esse filme seria um retrato bem feito do Palhaço do Crime depois do fiasco da versão de Leto em Esquadrão Suicida ou se realmente havia a necessidade da existência de um filme desse calibre, logo essa discussão passou a ser sobre retrato da violência, o papel da responsabilidade artística e terrorismo. Mas o que estaria despertando tanto sentimento, controvérsia e discussão seria apenas um mero filme ou haveria mais aos olhos dentro de uma adaptação crua e realista das origens de um super-vilão de HQs?



Coringa se passa numa Gotham City da década de 80 que encarna aspectos de uma Nova York daquela época pessimista: uma metrópole suja, depressiva, violenta e hostil, e sobretudo, em tensão. E num dos bairros pobres dessa Gotham vive Arthur Fleck, um sujeito que trabalha como palhaço para sobreviver, mora com a mãe Penny (Frances Conroy), mentalmente vulnerável, que depende de sete medicamentos diferentes para seus transtornos mentais e que não consegue ter controle sobre sua miserável vida, nem sua risada. Contudo, as circunstâncias desoladoras para Arthur apenas irão piorar, se no seu dia a dia sofrido ele sente as dores do mundo hostil este futuro Coringa logo descobrirá que seu ponto de ruptura não é apenas de um dia ruim, mas de vários dias ruins...



E aqui precisamos todos concordar que a performance de Joaquin Phoenix é simplesmente espetacular, desde o controle Charles Chapliniano que ele tem do seu corpo até o retrato dolorido da condição de risadas incontroláveis que Arthur possui, a construção de seu personagem e a gradação até a transformação final em Coringa é impressionante. 

Um roteiro complexo, uma Gotham perturbadora...

Coringa se trata com certeza de um filme fascinante de se observar em sua construção, mesmo que ele possa ser erroneamente resumido de um lado como "um filme para incels e apologético a violência" ou um atestado para a violência e anarquia. O roteiro também é forte e bem construído, além de melancólico. Arthur Fleck é um personagem que é constantemente esmurrado, muitas vezes literalmente, pelas pessoas ao seu redor. Dentro desta Gotham suja e assombrada pela recessão econômica, a falta do dinheiro e do corte de verbas para o acompanhamento psiquiátrico lentamente corroem uma pessoa que não tem mais a quem recorrer. Essa com certeza não apenas é uma das representações mais realistas e cruas de Gotham City, como essa nova perspectiva apenas torna tudo mais chocante. Não há tanques de produtos químicos, não há gangues de vilões com máscaras e fantasias ou gases do riso, apenas pessoas quebradas o suficiente que acabam conseguindo uma arma. E realmente, depois de ver o destrato que pessoas com desabilidades mentais ou problemas psiquiátricos podem sofrer você passa a entender o porquê do Batman não ousar matar os seus inimigos.



Se a violência do filme pode causar dúvidas e polêmica sua mensagem sobre a importância do trato de pessoas com problemas mentais não pode ser deixado de lado. Mesmo pessoas violentamente insanas ainda são pessoas, e elas se tornam violentamente insanas se deixadas em um meio que lhes dê uma arma, uma doença mental é essencialmente uma doença, e elas se tornam devastadoras para as pessoas sem condições para obter um tratamento adequado e deixadas a mercê de si mesmas.

O roteiro de Coringa não apenas traz essas questões, como também dobra em si mesmo para resolver seus pontos, incongruências que antes parecem gritantes acabam se resolvendo, momentos sutis, porém que revelam muito e tudo isso sendo regido pela ambiguidade da visão de Arthur, o que é real e o que não é se misturam nesse filme, trazendo uma sensação de algo intricado e questionador. Mas é claro, isso pode dar margem para mal entendidos, e é por isso que também precisamos falar sobre...

A violência, mídia e a ética dos artistas

Em julho de 2012, um homem armado atirou contra os espectadores numa sessão de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge em um cinema na cidade no Colorado, Estados Unidos,  o atirador teria entrado na sessão com o cabelo tingido de vermelho-alaranjado e uma máscara de gás e dizendo para a polícia "ser o Coringa", o atirador feriu 70 pessoas e conseguiu matar 12. A Warner Bros. à época cancelou a premiere em Paris e reforços policiais foram espalhados nas sessões de cinema para evitar copiadores.

Um dos pontos dentro do filme Coringa é a influência da mídia, bebendo bastante da influência de Frank Miller nas HQs do Batman. E recentemente criou-se uma enorme discussão sobre o filme do Coringa: seria ele violento demais? Seria ele um filme irresponsável? Seria ele um filme que endossa o comportamento de incels



Infelizmente o termo "incel" - que infelizmente explicarei brevemente aqui para não voltar mais a tocar no assunto, trata-se uma abreviação de "celibatário involuntário", ou seja homens que acreditam que não conseguem sexo porque são sistematicamente rejeitados, que as mulheres devem sexo a eles e se organizam em fóruns de internet para discutir meios de conseguir sexo rápido, seja com formas como assédio, estupro ou coisas piores e culpam também movimentos liberais como o feminismo, movimentos de direitos das mulheres ou pessoas de cor pelas sua frustrações - acabou sendo tomado pela mídia, como jornais e revistas de uma maneira irresponsável e arriscada, da mesma maneira que muitas vezes acontece quando se tomam termos de internet e eles acabam uma notoriedade. Estaria a mídia certa ao causar tanta atenção pra este filme? Estaria ela servindo de alerta ou de contribuidora para um possível futuro desastre ao pintar uma interpretação da narrativa de forma tão forte?

Parafraseando o que o ator Joaquin Phoenix disse em uma recente entrevista sobre o assunto: "se uma pessoa está mentalmente instável ao ponto de tomar uma arma e atirar em alguém, qualquer coisa se torna um gatilho", ironicamente, as declarações recentes do diretor Todd Phillips sobre o chamado "politicamente incorreto", parecem indicar que na visão do diretor, a arte deve passar por cima de certas sensibilidades e não possa ser uma incitadora de violência. Infelizmente algumas preocupações não são infundadas. Um filme, um artista ou um diretor não tem a obrigação de ensinar o certo e o errado para o seu público ou tornar mais explícita uma mensagem dentro dele para que as pessoas a apreendam, porém seria também inviável negar que o filme pode ser interpretado errado. O filme pode ser visto como um apelo para o desarmamento, mas também uma pessoa poderia argumentar que Arthur Fleck apenas consegue se defender da crueza do mundo com uma arma e que isso é algo "positivo". Não apenas isso, como é muito fácil que uma pessoa acabe se simpatizando com o personagem, concordando com seus pontos de vista e até seus métodos. A violência fictícia é catártica, mas o que acontece quando estamos em um momento sócio-político onde parece que algumas pessoas se veem sensíveis a ponto de não distingui-las? Infelizmente parece irônico que muitas pessoas hoje possam não entender que a mensagem do filme de homens brancos e supostamente heterossexuais que se sentem no direito de exercer sua violência e domínio possa suplantar temas mais relevantes que a dureza das metrópoles, pobreza, de como pessoas de classes baixas são excluídas, da falta de civilidade entre as pessoas hoje em dia e do abandono de incapazes pelo estado, especialmente de quem sofre de problemas mentais.
Talvez um dos únicos momentos que quase em unanime foi considerado como um pouco romantizador do filme seria a sua cena final, ainda que ela tenha um apelo estético. E infelizmente numa era trumpista-bolsonarista não é difícil que uma plateia aplauda a tragédia que é uma pessoa com transtornos mentais ser destratada por todos ao seu redor ao ponto de quebrar e passar de vítima para perpetrador da violência. 


Coringa vai longe demais? Sim. Isso é errado? Não. Ele é um filme irresponsável por ser lançado nesse momento? Sim e não. As afirmações de Todd Phillips sobre a "woke culture" hollywoodiana foram infelizes? Completamente. O Coringa deixa de ser um filme incrível por conta de tudo isso? Com toda certeza, não. 


Créditos:

Texto: Felipe Cavalcante
Revisão: Felipe Cavalcante e Bruno Bolner

O texto apresenta opiniões do autor do artigo e não do site Co-op Geeks.

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