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Felipe Cavalcante 29.12.19


A escritora britânica J. K. Rowling, a autora da série de livros Harry Potter, é a dona de uma das franquias mais lucrativas e reconhecidas das últimas décadas, com sete livros, duas séries de filmes, parques temáticos, apresentações teatrais na Broadway e video games e inegavelmente cativante para diversas pessoas que se apaixonaram pelo Mundo Bruxo. 

Em 2014 quando perguntada por um fã sobre a presença de alunos LGBT+ em Hogwarts a autora J. K. Rowling respondeu com uma imagem que dizia: "Se tem uma coisa que Harry Potter nos ensinou é que ninguém deveria viver em um armário."

Mas em 19 de dezembro deste ano J. K. Rowling se pronunciou com um tweet: "Se vista como te agradar. Se chame do que você quiser. Durma com qualquer adulto que consinta e que te queira. Viva sua vida melhor com paz e segurança. Mas forçar mulheres a saírem dos seus empregos por afirmar que sexo é real? #IStandWithMaya - Eu apoio Maya - #ThisIsNotADrill - Isso não é um treinamento.

A hashtag se refere à Maya Forstater, que trabalhava no Centro de Desenvolvimento Global (CDG), uma organização que visa na luta da não equidade e pobreza e da qual foi demitida quando alguns de seus tweets e posts foram descobertos em que ela se opunha e condenava o Ato de Reconhecimento de Gênero no Reino Unido, que permite que pessoas possam ser legalmente reconhecidas pelo gênero com o qual se identificam, e nesses tweets afirmando que se recusaria terminantemente a se referir à mulheres trans pelos pronomes corretos. Os empregadores de Forstater não renovaram o seu contrato afirmando o seu linguajar "ofensivo e excludente", ela convocou uma audiência contra, mas no final, o resultado foi de que não houve erro na não renovação do contrato.

Nas palavras do juiz James Taylor que analisou o caso: "Concluo a partir [...] e da totalidade das evidências, que [Fostater] é absolutista em sua visão sobre sexo e que esse  é o componente central de sua crença e que ela irá se referir à uma pessoa pelo gênero que ela considerar apropriado mesmo se isso violar a sua dignidade e/ou criar um ambiente intimidador, hostil, degradante, humilhante ou ofensivo."

As palavras de Rowling refletem à um pensamento ainda entranhado mesmo em alguns grupos de feministas de que pessoas transgênero não seriam realmente quem são, o gênero que elas afirmariam ter não é real e o máximo de respeito que se pode dar é o de deixá-las "vestirem-se como quiserem". Como um homem cis, minhas palavras neste artigo irão se basear nas respostas dos vídeos de dois youtubers trans (os vídeos são, infelizmente, em língua inglesa) que discutiram a fala de Rowling em seus vídeos cujos links estarão aqui e aqui.

Essa não foi a primeira vez em que Rowling se envolveu em polêmicas envolvendo a comunidade LGBTQ+, desde a representação da sexualidade do personagem Alvo Dumbledore, o diretor da Escola de Bruxaria de Hogwarts, que segundo ela seria gay, mas que nos livros apenas teve essa interpretação deixada no subtexto, assim como na série de filmes spin-off, Animais Fantásticos. Enquanto a representação de personagens gays, lésbicas e bissexuais era questionada, muitas pessoas também notaram um alarmante número de vezes em que a escritora parecia se manifestar com curtidas de artigos considerados transfóbicos. 

Quando falamos de transfobia, como na questão da homofobia e da bifobia, não queremos nos referir à medo, mas sim um termo que denota "uma série de comportamentos que revelam aversão, desprezo, manifestações de ódio, apagamento e negação." A discussão primária que envolveria o apoio de Rowling para com Forstater seria o de que ela não estaria apenas executando o seu direito de discurso, mas sim de causar um ambiente tóxico e degradante de trabalho para com seus colegas e que fossem pessoas trans, o que é obviamente inaceitável, mas as palavras usadas por Rowling revelam muito mais dentro de uma linha de pensamento cruel e ignorante sobre as experiências vividas por pessoas trans.

Uma da maiores dificuldades de pessoas trans é de não ser ouvida e de não serem reconhecidas como narradoras confiáveis de suas próprias experiências. Grupos feministas radicais costumam advogar contra leis e atos de reconhecimento de gênero, alegando a sua crença de que o sexo biológico é o único real, que deixar que mulheres trans ocuparem os mesmos espaços que mulheres cisgêneros seria colocá-las em posições de vulnerabilidade, já que elas as consideram "homens" e que afirmar o contrário é compactuar com uma suposta agenda para tirar o reconhecimento de "mulheres reais". Esse tipo de afirmação, contudo, em vez de tentar encontrar soluções parece muito mais focado em ataques contra pessoas trans e normalmente excluem pessoas trans de participar da vida pública e exercer seus direitos com capacidade total, desde coisas básicas como o uso do banheiro público assim como discriminação no ambiente de trabalho.

Enquanto que Forstater tem o direito de ter uma opinião, ainda que desagradável, ela não tem o direito de usá-la para atacar, discriminar ou criar um ambiente desagradável de trabalho. As pautas que são advogadas por ela são menos sobre proteger mulheres em locais pertencentes apenas à elas e mais sobre criar ambientes em que pessoas trans não possam participar ativamente. Quando pessoas trans podem mudar o seu nome e gênero em suas documentações legalmente, o uso dos pronomes que as deixa mais confortáveis se torna inegável em locais como o ambiente de trabalho e até existe a oportunidade da sua transgeneridade não se tornar uma questão na hora da contratação quando os documentos confirmam o gênero de uma pessoa já transicionada (ou seja que já passou pelas operações de transição de gênero).

Quando uma pessoa usa o pronome errado para uma pessoa trans, sabendo exatamente que aquela pessoa é trans, isso é uma tentativa de se exercer poder, de negar que a conversa seja agradável e aceitar os termos do outro. É ser desagradável e rude, além disso diversas empresas e organizações possuem em seus contratos cláusulas que deixam bem claro que se a parte empregada posta algo ofensivo ou que potencialmente desacreditar tal empresa isso ser cabível de demissão.

Infelizmente uma grande maioria das pessoas não apenas nunca conseguirá entender a experiência das pessoas trans, como nunca vai querer tentar entender. A mistura da apatia e da ignorância acaba sendo uma das frequentes razões da letra T de LGBT ser uma das mais atacadas dentro e fora do meio.

J. K. Rowling parece não entender que a experiência de uma pessoa trans não se resume no modo como ela se veste, nem o modo como ela se chama. Não parece interessante que crianças quando são adotadas mudam os seus sobrenomes, ou mesmo os seus primeiros nomes ou algumas pessoas podem mudar os seus nomes legalmente e isso não é questionado? A ironia de se apontar que não há problema nenhum na mensagem "durma com quem você quiser e que seja um adulto que consinta", quando justamente a questão de relações sexuais e consentimento nunca foi posta em questão dentro do Ato de Reconhecimento de Gênero.

J. K. Rowling anteriormente em seu twitter já curtiu artigos compartilhados nessa rede social que afirmavam veementemente sobre o suposto problema de mulheres trans que seriam "homens" usarem o banheiro feminino, ironicamente isso parece não se alinhar com o fato de que mulheres trans e travestis são reconhecidamente vítimas frequentes de violência, que a maioria dos casos de estupro que acontecem são por parte de familiares e conhecidos e que a maioria dos estupradores nesse caso, não se identificavam como transgêneros. 

A escritora J. K. Rowling foi acusada de transfobia, e até o momento não respondeu sobre tais acusações. Não existe nenhum razão para Rowling não contra-afirmar a acusação de transfobia a não ser que ela realmente possua uma opinião sobre isso que ela sabe que a maioria de seus fãs não irão gostar de ouvir. E infelizmente para isso não nos serve mais a resposta antiga, não nos serve mais lembrar que em 2014 quando perguntada por um fã sobre a presença de alunos LGBT+ em Hogwarts a autora respondeu com uma imagem que dizia: "Se tem uma coisa que Harry Potter nos ensinou é que ninguém deveria viver em um armário."

Parece ainda menos irônico que num mundo em que existem poções polissuco na qual você pode mudar de forma, feitiços com os quais que você pode mudar de aparência e metamorfagos a existência de pessoas trans esteja apenas num vago discurso.

E porque isso importa? Por que as opiniões transfóbicas de J. K. Rowling importam? O grande por quê é que ela continua sendo uma das maiores, mais influentes e mais bem pagas autoras dessas últimas duas décadas, os roteiros dos filmes dela continuarão fazendo dinheiro e os livros escritos por ela também, as pessoas escutarão o que ela diz e muitos de nós, pessoas cis, temos o privilégio de não ter martelando em nossas cabeças o fato de que uma de suas autoras favoritas, de livros que falam sobre compaixão, amizade e amor acredita que você está apenas se "vestindo como quer". 


Créditos

Texto: Felipe Lima
Revisão: Felipe Lima

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