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» » » » » » » » » » Watchmen - As máscaras, o tempo e o legado


Felipe Cavalcante 17.12.19


A série da HBO de The Watchmen - a obra-prima do quadrinista Alan Moore - que é uma obra por si só, teve sua trama desenvolvida pelo showrunner Damon Lindelof sem possuir o escopo do Watchmen das HQs. Ainda assim, é completamente imersa na atmosfera dos quadrinhos e, melhor ainda, é uma coisa própria: ela toma riscos e não poderíamos ter pedido algo melhor.

Atenção: este artigo pode conter informações consideradas spoilers.



Watchmen começa na cidade de Tulsa, Oklahoma, que foi o palco de um massacre racial na década de 20 e, justamente as tensões raciais no território dos Estados Unidos, são um dos pontos principais da série, que a demarcam tão fortemente.

A personagem principal, Angela Abar, interpretada por Regina King, é uma parte da força policial que se mascara na persona de Sister Night, numa inversão de papéis de vigilantes não-autorizados pelo governo: em Tulsa, os policiais precisam usar máscaras para proteger sua identidade depois dos ataques de um descendente radical da Ku Klux Klan - a Sétima Kavalaria - que ameaça a segurança da comunidade e dos próprios agentes.

Se iniciamos Watchmen com a morte de Edward Blake, o Comediante, aqui a trama começa a se desencadear no primeiro episódio com o misterioso assassinato de Judd Crawfordd (Don Johnson), o chefe da polícia local, uma figura conhecida e até admirada por Angela, e a investigação que se inicia, levando a consequências mais e mais tensas, inclusive a esqueletos no armário, que até memórias de elefante não conseguem esquecer.

Uma das melhores coisas da série ao abordar o tema do racismo é o sentimento de quase uma certa inversão de papéis dentro das diferenças de classe derivadas das Redfordations - essas reparações raciais são compensações financeiras e isenção do pagamento de impostos para reparar a iniquidade racial através de uma legislação para vítimas de violência racial e seus descentes, assinada como uma das prioridades da administração do presidente Robert Redford, interpretado pelo próprio ator Robert Redford. Mas, claro, essa decisão reparativa leva à animosidade, revanchismo e maior tensão dos grupos nacionalistas-brancos, especialmente a quem teve acesso ao diário do Rorschach, que foi deixado escondido no meio dos documentos de um jornal de extrema-direita no final da HQ.

As tensões raciais nos Estados Unidos, um país marcado pela segregação racial e a luta dos direitos dos negros, e que hoje vive uma turbulência política-social que se refletiu em diversos outros locais, exemplo claro o nosso próprio país, se demarca bem como uma das temáticas principais da série, seja nas discussões políticas ou seja no constante simbolismo: o preto e o branco da máscara do Rorschach, da Angela e mesmo de personagens inesperados.

Um homem detrás da máscara



A série tem uma gama de personagens muito interessante, cada um tendo um episódio para ser explorado, dentre os destaques estão Wade Tillman, aka. Looking-Glass, cujo backstory se alinha com os eventos anteriores e transformadores do universo de Watchmen, e Wade, uma das vítimas traumatizadas do evento da Lula Gigante de 1985, vivendo com a ansiedade de um possível evento tão catastrófico quanto o anterior podendo acontecer a qualquer momento.

Como sempre, na tradição de super-heróis ou vilões mascarados, temos a ideia de um motiff, algum elemento que parece sempre, de alguma forma, perseguir o indivíduo até que ele o incorpore na sua persona. A máscara reflexiva de Wade não apenas parece ser uma referência ao fato de que uma casa de espelhos parece o ter salvo da onda psíquica que matou centenas de pessoas, mas também como parece que a partir do seu trauma ele se tornou alguém que enxerga a partir do reflexo das pessoas, procurando saber os seus segredos. Logo, com todo sentido, ele se torna um interrogador, analisando as mentiras e verdades por um grupo de testes de propagandas.

Talvez o papel desse personagem tenha sido redondo dentro dessa temporada, com um episódio sublime focado em sua história, mas que, infelizmente, foi muito reduzido na finale.

Um gênio preso no paraíso


Adrian Veidt, o Ozymandias, que surge no primeiro episódio, interpretado por Jeremy Irons, também é um dos destaques e dos mais estranhos na série. Se no final da HQ original descobrimos que a mente genial por trás do grande plano, execução e finalização, triunfa, aqui descobrimos que existe um elemento mais humano dentro da genialidade, a falha fatal no plano de criar um mundo perfeito é justamente que o ser humano não consegue conceber ou aceitar estar nesse mundo.

Desde o início existe o mistério de onde está Adrian Veidt, agora declarado morto para o resto do mundo e que vai aos poucos sendo revelado para a audiência da série enquanto desvela a ego trip de Veidt, transformando o gênio num bobo da corte de sua própria vontade de tornar o mundo um paraíso.

A garota que jogou o tijolo



Laurie Blake, a segunda Silk Specter, está longe de ser a mesma da graphic novel. Agora mais cínica, mercurial e irônica, a personagem de Jean Smart abandona o sobrenome da mãe e a identidade de vigilante para se tornar uma investigadora do FBI que cruza o caminho de Angela na investigação do assassinato de Judd Crawford.

Ela também conta piadas para o Doutor Manhattan no episódio dedicado à ela, como numa ligação para Deus, nestas cabines telefônicas azuis que foram espalhadas por aí, nas quais as pessoas podem fazer ligações para Manhattan em Marte e que muitas vezes se tornam preces. A percepção de Laurie, agora para com a figura do Manhattan, é muito mais profana, porém, enquanto ela desenrola as investigações sobre a Sétima Kavalaria, tem suas reminiscências sobre o passado.

A God walks into Abar, ou Deus, não está te escutando, mas fique na linha



Outro dos destaques da série é a aparição do Doutor Manhattan. Nas HQs, o cientista John Osterman, depois de ficar preso numa câmara de testes de um experimento de física nuclear, é desintegrado, reintegrado num corpo físico e se torna um ser super-poderoso, com força telecinética, manipulação sub-atômica, habilidade de se teleportar à distâncias interplanetárias e estar em quase todos os momentos.

E essa é uma das forças motoras que entram dentro do drama do Doutor Manhattan, ou como ele mesmo coloca numa de suas frases "todos somos fantoches, mas eu vejo os meus cordões". Ele não vive o tempo numa linearidade como nós, uma vez que teve suas partículas espalhadas pelo universo, num tempo-espaço diferente. Ele está em todos os momentos e isso só reafirma a inevitabilidade das coisas, além de ser uma das razões da sua aparição surpreendente ser um dos pontos altos da série.

Watchmen continua o legado da HQ carregando-o nas costas, mas não decepciona, se apropriando dessa ideia de legado e seguindo com ela. Afinal, qual o legado deixado pelo final dos Minutemen nessa versão dos Estados Unidos? O legado dos seus ancestrais que você mal conhece? Poderiam ser as máscaras que vestimos sem nem perceber o porquê e as máscaras que caem de pessoas que imaginamos que eram uma coisa e não eram e, principalmente, a inevitabilidade das coisas, do tempo que progride e os pontos finais.



Créditos


Texto: Felipe Cavalcante
Revisão: Felipe Cavalcante e Bruno Bolner


O texto apresenta as opiniões do autor do artigo e não do site Co-op Geeks.

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