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Felipe Cavalcante 22.7.20


A série de filmes Animais Fantásticos, uma prequel de Harry Potter focada no magizoologista Newt Scamander, interpretado por Eddie Redmayne, tem sido o alvo de atenção desde o anúncio do primeiro filme, mas agora a atenção que tem recebido tem sido pela série de polêmicas envolvendo alguns dos atores e criadores dos filmes.

O problema com a franquia Animais Fantásticos se estende desde a sua concepção, várias pequenas coisas se acumularam para que pudéssemos chegar em uma resposta: Animais Fantásticos não val mais a pena.

Os Crimes de Johnny Depp, e Miller, e Rowling...



As acusações feita contra as principais figuras da série Animais Fantásticos com toda certeza manchou a franquia, mesmo o mais ávido defensor de que uma obra deve ser separada do criador não pode negar que a reputação criada com os escândalos dos envolvidos acaba precedendo as manchetes e as cabeças dos espectadores.

O começo de tudo foi a acusação de Johnny Depp de abuso doméstico. que se iniciou com a divulgação de um vídeo na qual a sua então companheira, a atriz Amber Heard, teria filmado um ataque violento de Depp. As acusações, no entanto, só repercutiram de verdade com a revelação da escalação do ator como o personagem Grindelwald, o vilão da franquia.

O caso Depp-Heard foi coberto exaustivamente pela mídia causando uma miríade de reações: desde pessoas defendendo arduamente o ator, outras defendendo a atriz, outras mudando de lados (como se casos de agressões fossem partidas de futebol) e muitos ataques gratuitos para aqueles que tomassem partidos e durante as reviravoltas do caso se mostrassem aparentemente errados. A única certeza que nos resta (e não cabe aqui dizer se o abuso, seja por qualquer uma das partes, aconteceu ou não) é que a imagem de Johnny Depp que tinha sido corroída com o tempo se tornou muito pior com a série de acusações.

Mesmo que Johnny Depp não tivesse sido acusado da agressão contra sua esposa, ainda assim, ele já não era há muito uma referência de ator, tendo se tornado uma caricatura de suas melhores atuações e considerado por muitos um ator que interpreta o mesmo tipo de personagem exaustivamente.

A aparência do vilão interpretado por ele, Gerardo Grindelwald, não somente é extremamente bizarra, como parece ser um tipo de emulação do estilo Tim-Burtoniano para o personagem, e isso tudo para fazê-lo caber melhor ao papel de Depp do que realmente querer construir algo interessante. 

Seguindo-se a esse caso houve o escândalo do ator Ezra Miller, que interpreta tanto o Flash nos filmes do DCEU, quanto o personagem Credence em Animais Fantásticos, que teve um vídeo vazado em abril desse ano na qual ele agride uma fã em um bar localizado na cidade de Reykjavik, Islândia. O ator foi filmado agarrando a moça pela garganta e a derrubando no chão, a repercussão nas redes sociais foi imediata e a confirmação da identidade de Miller como o agressor no vídeo se deu rapidamente.

E, por fim, tivemos o caso mais drástico: a transfobia de J. K. Rowling. Esse caso iniciou-se com o apoio de Rowling à Maya Forstater, uma mulher inglesa que não teve o seu contrato renovado pela empresa na qual trabalhava por causa dos seus tweets ofensivos feitos contra clientes e colegas de trabalho trans, depois disso, Rowling escreveu um longo texto na qual tentou defender os seus pontos de vista afirmando que a causa das pessoas trans seria algum tipo de invalidação do conceito de feminilidade e de mulher e terminou espalhando em seu twitter algumas ofensas e ironias sobre a validade da existência de pessoas trans. 

A primeira parte desse arrastado drama foi trazido no texto J. K. Rowling e a Transfobia, onde dissertamos um pouco sobre as falácias das afirmações sustentadas pela autora e roteirista da franquia. Mas o fato é que parece ser muito mais difícil para que alguém se sinta confortável consumindo essa história sabendo de tantas questões envolvendo as pessoas nela, mas quem dera fosse só isso...

Nagini, Leta e aquele pessoal do primeiro filme que você não se lembra quem é...


Dentre outros problemas que surgiram desses filmes, o excesso de tramas secundárias com toda certeza é uma delas. Nós só tivemos dois filmes, mas a quantidade de personagens que "não serviram para nada" é bastante impressionante. Não que esses personagens não sejam interessantes, mas esperar mais dois filmes para saber o destino final deles é particularmente frustrante, especialmente se eles só tem duas falas num filme, ou mesmo nenhuma.

Vamos começar com o personagem interpretado por Jon Voight, o dono do jornal em Nova York, Henry Shaw Sênior, que segundo o ator é um homem "trabalhador e honesto, que teve dificuldades para chegar onde está, mas que possui o conflito de não saber como lidar com seus dois filhos e tem um bom coração"... Se ao menos pudéssemos ver isso no filme. A maior parte das cenas da trama da família Shaw foi cortada, inclusive diversas cenas na qual a ameaça dos Segundos Salemianos, (você lembra que eles existem?) que deveriam ter um papel maior na história, passou pela mesma tesourada. Alguns fãs ainda acreditam que os personagens devem voltar para a trama em algum filme futuro, mas para quê guardar esperanças?

Além disso temos Nagini, interpretada por Claudia Kim, sim, não apenas um choque para os Potterheads que ou amaram ou odiaram a ideia de que a personagem já foi humana, como também recebeu diversas críticas por não somente ter quase nenhuma fala, como a implicação muito horrível de que uma mulher asiática transformada numa serpente mágica se tornou a serva de um bruxo das trevas durante anos só para ser decapitada por um jovem adulto com uma espada...

Ainda temos Leta Lestrange (Zoë Kravitz), que embora tenha peso e uma backstory muito interessantes, vem de uma trama horrível envolvendo o sequestro e estupro de uma mulher negra por um bruxo das trevas branco... O fato de Leta ser mais uma mulher negra morrendo em um filme se sacrificando e ela ter várias de suas cenas cortadas também não fala bem ao filme. 

Também temos diversos personagens que poderiam ter o potencial, mas que apenas surgem na trama e não fazem nada de muito interessante: desde Yusuf Kama (William Nadylam), a meia-elfa Irma Dugard (Danielle Hugues), Modesty (Faith Wood-Blagrove), a irmã adotiva de Credence, a bruxa Vinda Rosier (Poppy Corby-Tuech), Grimmson, Spielman, Bunty e vários personagens que surgem e se vão na trama sem deixar quase nada na história.

Fanservice: um feitiço vazio


A autora intencionalmente tem feito um completo retcon de seus personagens. Um retcon, significa, continuidade retroativa, ou seja, quando um autor ou escritor muda um aspecto já estabelecido de sua obra ignorando o que já havia sido dito ou fortemente implicado antes.

Um dos exemplos gritantes foi a aparição da personagem Minerva McGonagall em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald sendo professora em Hogwarts na década de 1910. Nos livros, a professora Minerva McGonagall menciona ter trabalhado por cerca de trinta e nove anos em Hogwarts:


"- Há quanto tempo você está ensinando em Hogwarts? - perguntou a Prof.ª Umbridge.
- Trinta e nove anos, agora em dezembro - respondeu McGonagall, fechando sua bolsa com um estalo."

Mas com os filmes, os malabarismos matemáticos exigidos pelos fãs para explicar o porque da personagem estar em Hogwarts desde a década de 1910 também exigem do fã acreditar que ela simplesmente teve um hiato de 46 anos em sua carreira. 

Outras mudanças foram Dumbledore ensinando Defesa Contra As Artes das Trevas, para repetir a cena da aula do professor Lupin do terceiro filme, Nagini sendo uma personagem importante agora, aparições de objetos como o Espelho de Ojesed ou a Pedra Filosofal, que surgem e somem dos filmes rapidamente e não carregam nenhum peso ou consequência reais dentro da trama.

Esse tipo de mudança tem acontecido por um motivo bem claro: fan-service.

E não é um fan-service muito bem executado, apenas personagens e nomes conhecidos sendo jogados em diversos pontos da trama sem nenhuma consequência. Afinal, qual a grande relevância de McGonagall em Hogwarts durante Os Crimes de Grindelwald? Se a única cena que existe dela interagindo com Dumbledore além de ser quase um nada de interação foi cortada do filme!

O último fan-service, claro, seria o cliffhanger desgracento do segundo filme, a revelação de que o personagem Credence seria secretamente um Dumbledore... A revelação (que pode ou não ser verdade) dividiu os fãs, e infelizmente, agora com o acúmulo que pesa sob a série, provavelmente, muitos deles não ligam mais para essa resposta...

David Yates não sabe o que faz...


Poderíamos conjecturar a penca de problemas que Animais Fantásticos poderia sofrer desde o início só observando a sequência de abertura da série. O que o diretor David Yates faz na primeira cena de Animais Fantásticos e Onde Habitam?

Depois do logo da Warner temos uma cena muito estranha com um foco em um chatêau que mal aparece na tela, as silhuetas de várias pessoas com casacos e varinhas a postos, uma explosão, e depois o foco em Grindelwald de costas. A maneira mais óbvia, menos clara e mais mal feita de mostrar o quanto o vilão da série é poderoso. 

Quem são essas pessoas? Não sabemos, só podemos imaginar que são aurores mais tarde assistindo ao filme. O que eles estavam fazendo? Numa missão secreta? Tentando capturar Grindelwald? Foi assim que Grindelwald tomou a forma de Graves? Porque ninguém menciona esses aurores mortos? Não sabemos. Essa cena só serve para existir mesmo.



Então temos uma sequência de recortes de jornais bruxos, porque é claro que os espectadores precisam de exposição na cara deles em vez de um tratamento de roteiro mais decente ou de diálogos que exponham a situação sem serem óbvios. 

David Yates não sabe o que faz, ele muda cenas do roteiro original e toma decisões estranhas em relação à como contar essa história, e claro, isso só piora a situação toda.

Os Animais Menos Fantásticos...


Além de escândalos com atores e uma boa parte das críticas foram feitas pelos efeitos especiais que não funcionam sempre. Os animais fantásticos que dão título aos filmes, embora sejam muito interessantes, parecem estar sendo forçados nos filmes e acabam sendo uma distração e não justificam-se dentro da história. 

Claro, uma pessoa poderia afirmar que faz todo o sentido os animais estarem no filme, afinal, Newt estuda os animais, mas a maneira como eles continuam aparecendo na trama parece muito artificial. 

A justificativa dada para que o título da série se refira aos animais é que a série de filmes é sobre os "corações humanos" e como as pessoas são as criaturas mais fascinantes e fantásticos que se pode conhecer. O que é basicamente uma maneira de dizer que não temos a mínima ideia de sobre o que é a série e teremos vários animais mágicos enfiados em todos os filmes para poder vender bichos de pelúcia. 

No final, Animais Fantásticos e Onde Habitam era uma boa ideia para uma nova franquia, mas seu roteiro muito complicado, decisões de filmagens estranhas, polêmicas e escândalos simplesmente minaram a possibilidade dos fãs de terem mais conteúdo de Harry Potter e do Mundo Bruxo. A franquia poderia ter se renovado e crescido muito, mas graças a novidades como a peça A Criança Amaldiçoada e a série Animais Fantásticos, os fãs devem permanecer com "saudade do que nunca viveram".

Créditos

Texto: Felipe Lima
Revisão: Felipe Lima

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