Menu
» » » » » » 'A Noiva' e o terror russo


Valentina Gaztañaga 10.8.20


Alguns contos de literatura russa depois e o filme A Noiva ( Nevesta em russo), do diretor Svyatoslav Podgayevskiy, seria outro, definitivamente.

No entanto, cinema é uma expressão artística que não deveria pressupor que quem está lá para assistir tem uma boa noção de história mundial e até mesmo do conceito de historiografia, ou será que deveria?

Se reclamamos que Christopher Nolan explica demais e trata o público como boboca, neste filme de horror/terror russo, temos a impressão que ficou faltando um prólogo, estilo Star Wars para nos inserir naquela história.

Em uma galáxia muito, muito distante, digo, em uma Rússia muito, muito distante, havia uma noção de Pátria ideal, homens e mulheres se casavam com ela, juravam sua lealdade e prometiam tudo o que tinham em prol do sucesso da revolução. A esposa Rússia, a mãe Rússia, parece entrar em um jogo de espelhos e distanciamento neste filme. Mas é aquilo, eles são russos, eles que se entendam.

O enredo trata de um jovem casal que regressa ao casarão centenário da família de Vanya (ou Ivan na versão dublada) - o marido - para visitar a irmã e os sobrinhos que ainda vivem lá. Ficamos sabendo que a família segue tradições estranhas, tão esquisitas que Vanya já não concorda com o motivo de segui-las, mas entende que sempre foi assim. A jovem noiva Nastya é apresentada ao retrato da Mãe e ao álbum de família do marido. Ela percebe que há algo de muito parecido na feição das mulheres nas fotografias e fica sabendo que a família tinha o excêntrico hábito de pintar os olhos dos cadáveres e fotógrafa-los. O patriarca Barin foi quem deu origem a linhagem de fotógrafos da família.



A narrativa se desenvolve e somos levados a acompanhar diversos símbolos que remetem talvez a historiografia russa, o modo como a história da russa chegou até nós. Vimos esconderijos dentro das casas, feições duras e frias, um sentimento de lealdade familiar intenso, cenas de espancamento e tortura e presenciamos o estranhamento do jovem casal diante daquelas fotografias e tradições anacrônicas, tentando sobreviver ao desmoronamento de décadas de uma horrenda maldição.

Neste ponto, estudantes de ciências humanas saem na frente e provavelmente gostaram do pano de fundo do filme. Nastya, a noiva, faz faculdade de Pedagogia e Filosofia, para completar a tríade, a fotografia cria uma relação com a historiografia, trazendo a História (com H maiúsculo) para dentro da história do filme.

O registro de fatos históricos nunca é neutro, por isso historiadores revisitam as fontes originais de tempos em tempos para atualizar a leitura dos fatos, propondo novas maneiras de olhar para o que aconteceu no passado, descobrindo novas evidências e reunindo relatos e registros até então desconhecidos.

Vanya e Nastya relutam em continuar a tradição da família até que se veem obrigados a romper definitivamente com ela para salvarem suas vidas. Nastya não reúne todos os atributos que a família necessita e isso literalmente muda seu destino.

O filme recebeu críticas de que nas cenas de susto, o susto não acontece. Em um primeiro momento, tive essa impressão, mas depois, pensando o filme através da alegoria política e historiográfica, talvez o fato da cena de susto não aterrorizar tenha um paralelo com a ideologia da Mãe Rússia que parece não impressionar os jovens nos dias de hoje. Daí o gostinho de anacronismo do filme, é bem possível que o jovem de hoje não queira nem ouvir falar em armas e revolução, dar sua vida por um ideal, lealdade à pátria e a família parece que estão em russo antigo!



Claro, que todo este subtexto vem de uma reflexão sobre o filme. Mas assim como em Mother, do diretor Daren Aronofsky, narrativas cinematográficas podem servir o expectador de metáforas e símbolos que reverberam mesmo depois do letreiro final.

A produção é modesta e os efeitos visuais são mais toscos do que estamos acostumados no cinema de horror, mas cumprem o papel na história.

Outra pista de que A Noiva traz outros subtextos é a forma como entrelaça temas antigos e modernos, como vemos na jovem Nastya, que embora sonhasse com o casamento, não tinha os mesmos modos e costumes das virgens de outra época.

Essa jovem violada, talvez seja uma das piadas (alerta de humor sarcástico). Afinal, produzir um filme de terror tocando nesses assuntos seria impensável na época da União Soviética. Outra piada, aí um tanto mais internacional, é o medo de se tornar a mãe do marido depois de casar, já pensou?!

A Noiva está disponível na Netflix. Outro filme diferentão de terror é A Bruxa, do diretor Robert Eggers.

Créditos

Texto: Valentina Gaztañaga
Revisão: Bruno Bolner

O artigo apresenta as opiniões do autor do texto e não do site Co-op Geeks,

«
Próximo
Postagem mais recente
»
Anterior
Postagem mais antiga