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Valentina Gaztañaga 9.9.20


Famosa por popularizar produções estrangeiras, a Netflix colocou mais um filme espanhol em seu catálogo disponível no Brasil, Origens Secretas.

“Inglaterra fez seu Rei Arthur, mas Espanha o único que conseguiu cagar foi um louco”, é assim que o agora aposentado inspetor policial define o folclore espanhol no filme escrito e dirigido por David Galán Galindo (óbvio). Retrato de uma Espanha pouco compreendida entre os seus, menos ainda pelos que nunca pisaram lá.

Quando falamos em obras sarcásticas na literatura ou no audiovisual lembramos do humor ácido inglês e logo em seguida do burlesco americano. A verdade é que os brasileiros tiveram pouco contato com o cinema espanhol, já que nossa tradição estava mais ligada ao cinema francês quando queríamos parecer bem phynos.

Superada a fase das videolocadoras de gênero, hoje podemos assistir produções de quase todos os países e então entramos em contato com linguagens até então bem estranhas.

Falar uma língua estrangeira não é só usar um vocabulário diferente com novas regras gramaticais, é também entender o que aquele povo acha engraçado, do que sentem medo, o que pensam do mundo, enfim, com a cultura daquele lugar estrangeiro.

A película é visualmente impactante, sarcástica, colorida e com uma mensagem recorrente nas produções espanholas atuais disponíveis no serviço de streaming: crítica ácida a ideologias.

Munido de arquétipos bem definidos, o longa executa uma paródia dos filmes de super herói e vai costurando por baixo do texto uma mensagem, a crescente onda reacionária que vem ganhando força no país com partidos políticos como o Vox e em outros membros da União Europeia (e no Reino Unido).

Em Estamira, um documentário de 2006 dirigido por Marcos Prado, temos uma imagem muito poderosa usada na época para debater a herança cultural que os filhos herdam de seus pais. No documentário, Estamira alimenta os filhos com produtos recolhidos nos lixões onde cata sua sobrevivência. Assistir a cenas como aquela é impactante, mas o que revela ser ainda mais profundo é o fato dos filhos comerem aquela comida feita de lixo e julgarem-na boa e saborosa.

A crítica gira em torno do descumprimento das promessas do Estado e o papel da família para tornar tudo aquilo tragável. Em Origens Secretas, você vai encontrar a mesma imagem. E talvez seja ela a imagem que fundamenta a mensagem do filme.



Se você é fã de La Casa de Papel, mas não é friki (nerdzão) vai curtir o filme mesmo assim.

Origens Secretas e O Poço são trajes diferentes para a mesma mensagem: a panacota.

Para os jovens espanhóis entre 20-30 anos, a panacota está muito clara, por isso a diáspora de castelhanos para Irlanda, Alemanha, Reino Unido e principalmente Estados Unidos e América Latina.

Vai demorar para que o cinema espanhol atual seja facilmente compreendido na América Latina, mesmo que o pensamento de ultra-direita tenha ganhado adeptos por aqui. Nossa legislação para internet é fraca, temos baixíssima privacidade online e isso abre espaço para quem tem na educação uma vantagem competitiva.

O brasileiro assiste Estamira alimentando seus filhos e se emociona, porque se reconhece ali. E a maioria para por aí. Isso faz do Brasil um excelente lugar para se fazer dinheiro. Abre o olho, Brasil!

Em Origens Secretas, o tema da vigilância vem à tona sob outro aspecto, o militarismo. Pegar em armas para garantir a limpeza das ruas (e da nação) é uma herança bem viva no imaginário do jovem espanhol, principalmente, da juventude madrilenha. Mas o filme extende a mensagem aos países vizinhos que também vivenciam o ressurgimento da “nova política”, que de nova só tem a roupa.

Origens Secretas está disponível na Netflix e sugiro que você assista no idioma original com legendas em português pelo menos uma vez. Caso você queira ver outra obra satírica sobre o mesmo tema (sim, os espanhóis têm 1001 maneiras de falar sobre um mesmo tema), sugiro o clássico Ana e os Lobos (1973) do diretor Carlos Saura.

Créditos

Texto e revisão: Valentina Gaztañaga

O artigo apresenta as opiniões do autor do texto e não do site Co-op Geeks.

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