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» » » » » » » » (REVIEW) CIDADE INVISÍVEL: eles estão entre nós


Lucas Lorran 15.2.21


Para os fãs do folclore brasileiro que cresceram assistindo a adaptação da Globo de Sítio do Pica-pau Amarelo (daquele autor que não deve ser mencionado), e por muitos anos sonham com uma produção que se aventure pelo fantástico nacional. ATENÇÃO: Cidade Invisível é o que você precisa.

A produção original da Netflix, criada por Carlos Saldanha e roteirizada por Raphael Draccon e Carolina Munhoz, chega nos trazendo um olhar sombrio de uma Fantasia Urbana e os clássicos personagens do folclore mais intrigante do mundo. Com apenas sete episódios de no máximo 40 minutos, a série acompanha a busca de um detetive em desvendar quem causou a morte de sua esposa, e no desenrolar, ele descobre que criaturas sobrenaturais podem lhe dar as respostas desejadas. A série é muito clara e objetiva em estabelecer a trama principal, e não enrola em nos apresentar suas icônicas releituras das lendas, como Saci, Cuca, Tutu, Boto, Iara e o emblemático Curupira. Para os fãs de tramas movidas por um mistério que se desvenda sem muitas complicações, surpreendendo aos poucos, Cidade Invisível é um presente muito bem embalado.

A trama se aventura muito bem introduzindo e conectando todos os personagens mostrados na história. Ninguém ali está para preencher um buraco, e facilmente a gente conhece as motivações e as personas de cada um, como Eric (Marco Pigossi) é o clássico personagem perturbado por um trauma e precisa proteger a filha de algum perigo desconhecido, e o ator brasileiro convence demais com sua atuação. Sua colega de trabalho Márcia é perfeitamente consolidada como uma mulher forte e destemida pela atriz Áurea Maranhão, estabelecendo uma sutil representatividade LGBT na trama, sem forçar, nem fazer queerbait. É de longe uma das personagens que mais movimenta a trama.


Imagem: Rosto do personagem Eric com uma borboleta pousada em seu nariz, cobrindo seus olhos.


O espetáculo é sem dúvidas entregue pelos atores que dão uma nova roupagem às lendas. Victor Sparapane traz o famoso e sedutor Boto, mostrando os motivos que faz a lenda ser tão falada pelo povo ribeirinho. Talvez tenha faltado mais sedução aqui, mas considerando o foco mais denso da trama, Manaus é o personagem misterioso que move bem a narrativa. Jéssica Córes nos apresenta a linda e perigosa Iara, a sereia foi adaptada ao subgênero Fantasia Urbana, e facilmente conseguimos perceber seus traços e poderes na periferia carioca. O Saci traz uma nova forma de negritude sobrevivendo em uma cidade grande, e Wesley Guimarães traz todo o carisma e a malandragem do travesso personagem.

Precisamos dar destaque a perigosa, poderosa e lindíssima (???) Cuca. Muito se questionou sobre como era possível a Cuca ser tão bela e tão diferente daquela apresentada em Sítio do Pica-pau Amarelo. Bem, Alessandra Negrini sempre pega personagens fortes e com um ar de sedução e mistério, e dessa vez não seria diferente. A personagem movimenta tão bem a história, que logo você saberá por quais motivos a lenda é tão temida na floresta. E aqui, ela assume uma identidade mais alternativa e boêmia, casando muito bem com seus hábitos noturnos. 

O Curupira é outro personagem perfeitamente construído na trama. Fábio Lago entregou muito ao representar o que a vida da cidade fez com o temido protetor da floresta brasileira, apesar de interpretado por um ator branco e não-indígena.

A ambientação da série é belíssima, contrastando o bruto da mata atlântica com o caos da vida boêmia e alternativa. Os elementos que constroem a Fantasia Urbana são usados sutilmente ao longo da história, trazendo aquela vibe de "barzinho de fim de tarde" transmutando para uma madrugada cheia de música e bebedeira. Mas também há espaço para um ar "família domingo à tarde" e "igarapé no final de semana". Tudo isso contextualizando de forma equilibrada a história num ambiente bem brasileiro.

Outro aspecto lindíssimo na nova produção da Netflix é os efeitos especiais e a maquiagem, ambos muito bem elaborados e "casados". É muito comum (e compreensível pela demanda financeira exigida) que produções nacionais quando apresentam personagens fantásticos acabem por perder muito na apresentação visual da obra. Mas isso não aconteceu aqui. A apresentação da Iara, Curupira e Tutu é muito bem feita e realista. Em muitos momentos, os efeitos são sutis e até básicos demais, porém são suficientes para construir a narrativa contada. Sem dúvida, você vai se encantar com a transformação da Iara e se assustar ao ver o Curupira correndo pela floresta.

Cidade Invisível brinca com muitos aspectos narrativos necessários para uma trama forte e necessária. Além de se preocupar em consolidar sua face fantástica de modo que quem a assista tome tudo aquilo como super possível de existir, a série não perdeu o timing de alfinetar a consciência nacional ao conversar sobre como o materialismo moderno tem consumido e esquecido a cultura regional. 

A crítica é feita nas entrelinhas, não é forçada, nem toma como uma forçada no debate, muito pelo contrário, ela é retomada em falas, cenas, acontecimentos e até na reviravolta final da trama. Deixando claro que as lendas estão a resistir na vida urbana, não por escolha, mas por sobrevivência.

Cidade Invisível é uma das séries nacionais mais necessárias e bem construídas das produções da Netflix. Talvez não chegue a ser tão aclamada como deveria, porém ela é um grito para que grandes produtoras foquem mais em contar nossas lendas em narrativas audiovisuais. Torcendo para que haja uma segunda temporada, trazendo novas lendas (Matinta Pereira, por favooor) e mantendo o ritmo e a atmosfera misteriosa da trama.



Créditos


Texto: Lucas Lorran

Revisão: Lucas Lorran e Felipe Lima






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