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Lucas Lorran 13.4.21

     Imagem: Fundo vermelho, vários personagens clássicos dos desenhos animados como: o ele de meninas super poderosas (um homem com aparência de demônio, pele vermelha e garras de caranguejo, usa um vestido de gola com plumas e bota de cano alto, além de usar maquiagem), marinheiro popeye (homem branco e careca com roupas de marinheiro e braços muito fortes, ele fuma cachimbo), Jhonny Bravo (homem branco, loiro com topete, usa oculos escuros e blusa preta, ele é muito musculoso), He-man (Homem branco musculoso, sem camisa, com uma espada na mão, seu cabelo é chanel, liso e loiro), steven Universo (garoto gordo e baixo, cabelo cacheado preto, sua pele é rosada, e ele usa uma camisa salmão com uma estrela).)



A influência de personagens icônicos na vida de seus fãs é inegável, e é necessário aceitar que personagens marcantes foram também influenciados pelo contexto social e mental de suas épocas. Personagens masculinos animados ao longo das décadas ditam, criticam, constroem e desconstroem a concepção do que é ser masculino. Com certeza você já se identificou com algum personagem cuja masculinidade é sua principal marca de identificação. E antes de tudo, decidi pegar aqui uma definição padrão de masculinidade do Wikipédia para justamente podermos decorrer bastante sobre como este “padrão” vem sendo reformulado e debatido nas animações: “... conjunto de atributos, comportamentos e papéis geralmente associados a meninos e homens. A masculinidade é construída socialmente, mas composta por tanto fatores socialmente definidos quanto biologicamente inerentes, distintos da definição do sexo biológico masculino”. (Wikipédia). Longe de ser um artigo científico (quem sabe em breve?), esta matéria é dedicada a isso: personagens masculinos que durante suas eras de auge, ou mesmo fora de época, apresentaram ao mundo o que é (ou não é) a masculinidade.

 

Popeye e Brutus (década de 40)

Criador: Elzie Crisler Sega

Imagem: Fundo Azul, no centro o marinheiro popeye (homem branco e careca com roupas de marinheiro e braços muito fortes, ele fuma cachimbo)

 

O super corajoso e viril marinheiro Popeye, que como um “homem ideal” protege sua amada Olívia Palito do bruto Brutus, outro marinheiro que assume o papel de antagonista da animação. A narrativa dos episódios consolida ainda mais a masculinidade marcante dos inimigos: Popeye sempre tendo que salvar sua namorada das “garras” de Brutus. Popeye se apresenta como um homem musculoso, de estatura média, com uma voz grave e rouca, e adquire uma força sobre-humana quando se alimenta de espinafre. Se você foi um garoto na época em que se passava Popeye na TV, com certeza você ouviu muito que deveria comer espinafre para ser forte e corajoso como Popeye (mas eu não queria ser como Popeye, eu queria ser protegido como a Olívia!). É muito notório o contraste do que é ser masculino e do que é ser femininA (vista que somente uma garota na história performava isso) no desenho: masculino é ser forte, corajoso, agressivo e protetor de sua amada, feminina, por sua vez, é ser frágil, gentil, romântica e protegida pelo seu amado.

É muito bom podermos hoje visualizarmos este estereótipo tão desatualizado e abrimos um debate sobre o que é ser os dois, e que tudo certo transitarmos entre eles.

 

Pernalonga (Ainda na década de 40)

Criadores: Tex Avery e Friz freleng

A imagem mostra o personagem Pernalonga beijando na boca o caçador Hortelino


O abusado e folgado coelho (ou seria uma lebre?) é conhecido e amado por muitas pessoas até hoje. Pernalonga, que vivia somente para comer cenouras e para infernizar a vida de seu caçador Hortelino, performou muitas características socialmente aceitas como femininas. Em muitos episódios, o coelho já se transvestiu de mulher, usou batom, vestidos, imitou uma voz mais feminina, e até já beijou Hortelino na boca. Pernalonga, talvez por não ser humano, apresentou ao público de forma muito natural que a masculinidade tem muitas camadas e performances, e que em nada invalida seu gênero.

 

Fred e Barney - Os Flintstones (Década de 60)

Criador: William Hanna, Joseph Barbera

A imagem mostra da esquerda para a direita: a esposa Wilma, o marido Fred, o melhor amigo Barney e sua esposa Betty.


 

Os dois operários da era da pedra lascada são presentes até hoje no imaginário animado. Cada um sendo o pai de família que precisa sair de casa para sustentar os seus, com suas esposas dedicadas ao lar e assuntos de beleza, além das famílias terem de lidar com assuntos típicos de uma vida em sociedade. O estereótipo aqui se mostra forte à medida que os dois amigos lidam com questões familiares e sociais considerando sempre o que um “bom homem” deve fazer. A masculinidade aqui se mostra mais nos laços afetivos e sociais da narrativa: como posso conseguir o perdão da minha esposa?; Como devo tratar meu patrão?; Como devo educar meus filhos? No fim, o afeto é o que prevalece, garantido que independente do que a sociedade espera da sua masculinidade, não é ela que define você e suas relações.

 

A Pantera Cor-de-Rosa (ainda na década de 60)

Criadores: David Hudson DePatie e Friz Freleng

 

A imagam com fundo azul, mostra a personagem Pantera cor-de-rosa deitada, erguendo um dos braços. Ela tem um semblante sereno.

Criada exclusivamente para o filme com seu nome, porém de tão carismática, a personagem ganhou uma animação incrível e colorida. Tal personagem apresenta muitas questões de gênero e sexo sem nunca ter isso como foco. Na época, muito se perguntava qual seria o sexo dela: seria feminino por se usar o artigo feminino definido “a”? Ou seria somente porque o substantivo Pantera é do gênero feminino? Seria do sexo feminino por ser da cor rosa? E sua performance pacífica, calma, serena, não definiria ela como do gênero feminino? A verdade é que A Pantera Cor-de-rosa é do sexo masculino. Começamos então a ver aqui uma nova abordagem sobre como uma personagem do sexo masculino pode performar naturalmente uma masculinidade totalmente diferente da aceita socialmente. Características como tranquilidade, preocupar-se com a aparência, ser afeminado, ter uma cor rosa, e até pintar as unhas de rosa, são apresentadas e consolidadas como masculinidade. (Taranranran taran taranranranrannnn - lê com a melodia da música vai!)

 

Blue Meanies (década de 60 ainda!)

Criador: Heinz Edelmann

 

A imagem com fundo colorido mostra um gigante Blue Meanie segurando pelas orelhas um Blue Meanie menor. O primeiro tem um sorriso maléfico e o segundo mostra-se assustado.

Eles não são tão conhecidos, pois são bem alternativos. Quem é fã da banda Os Beatles conhece bem. Os vilões da animação Submarino Amarelo chegam para representar todas as pessoas más do mundo, que não gostam de nenhum tipo de música e só aceitam “não” como resposta. É muito interessante analisarmos eles porque aqui vemos a fusão de características viris e ferozes que temos em Popeye, como características estéticas da Pantera Cor-de-rosa. Os Blue Meanies são super preocupados com sua aparência, mesmo que tenham um gosto super desarmônico e extravagante para combinar roupas. Eles usam salto-alto, batom, brincos, unhas pintadas, mas também são brutos e grosseiros. Então vemos aqui uma nova concepção de masculinidade nos desenhos animados: eu posso performar uma masculinidade viril e ser extravagante. O que acham disso?

 

Fred e Salsicha - Scooby-doo (Saindo dos anos 60)

Criadores: Joe Ruby e Ken Spears

A imagem com fundo alaranjado e nuvens amarelas ao redor, tem como centro o grupo formado por Fred, Velma, Scooby-doo, Salsinha e Daphne


Todo fã de mistério sem dúvida conhece este clássico dos desenhos animados. A turma do Scooby-doo desvenda os mais enigmáticos casos sobrenaturais por onde passam. Poderíamos falar do adorável e medroso cão (eu amo demais!), porém vamos focar nos humanos Fred e Salsicha. Os dois são super antagônicos: Fred é corajoso, esperto e super atento à própria aparência, enquanto Salsicha é medroso, bobão e tem uma aparência super desleixada (Shaggy, seu nome em inglês faz referência a isso). A masculinidade aqui é vista em como sua postura perante a crise e o incerto garante bons resultados. Fred é o padrão de masculinidade moderna apresentada na narrativa, onde sempre tem as melhores ideias, estando preparado para liderar o grupo, mas sempre acaba sendo salvo pelos amigos, muitas vezes sendo Salsicha e Scooby-doo. Salsicha sempre assume a postura de fuga e medo, pouco acredita em si mesmo, mas está disposto a ajudar seus amigos. Os dois complementam a ideia de equilíbrio necessário numa masculinidade: tudo bem sentir medo, querer fugir, se sentir incapaz, ou não ligar para a aparência, isso não diminui você. E ser masculino não é sobre ser sempre o líder, o corajoso ou o mais preparado.

 

Gomez Addams da Família Addams (Entramos nos anos 70)

Criador: Charles Addams

 

A imagem tem um fundo alaranjado, e ao centro uma fotografia em desenho animado de toda a família Addams

A feiura e o aterrorizante são primordiais para esta família do terror. Com membros muito caricatos e com insanidades bem peculiares, podemos olhar para o patriarca da Família Addams. Gomez Addams é inconsequentemente apaixonado por sua elegante Morticia Addams. Vemos a masculinidade aqui construída sobre a insígnia da elegância, da paixão e do efêmero. Assim como toda a família, Gomez vive para o prazer das coisas do além vida. Ele se mostra um homem sem medo de demonstrar pública ou irracionalmente todo seu desejo pela esposa, além de ser exorbitantemente vaidoso e elegante. Aqui a masculinidade não é viril, agressiva ou fria, muito pelo contrário, ela é assustadoramente emocional.

 

He-man (E veio a década de 80)

Criador: Roger Sweet

A imagem tem como fundo uma explosão animada e colorida, e ao centro vemos a personagem He-man segurando sua espada. Ele tem um semblante de fúria.

 

A virilidade voltou com tudo na década de 80 com o indomável He-man. E voltou mesmo. Basta olhar para o físico e postura brusca do príncipe Adam. Seja durante as cenas de luta ou quando assumia sua forma heroica, a masculinidade é fortemente marcada pela força e bravura. Mas He-man não era só luta, ao fim dos episódios, o herói aparecia quebrando a quarta parede e conversava com o público, ensinando qual moral era tirada da aventura assistida. Teríamos aqui o molde ideal de masculinidade? Ser forte, musculoso e moral? (Ei, Capitão América corre aqui!).

 

Johnny Bravo (Década de 90: chegamos!)

Criador: Van Partible

Imagem com fundo azul, tendo ao centro a personagem Jhonny Bravo. Ele veste uma camisa preta, calça jeans e sapatos, além de usar um óculos escuro. Ele faz uma pose mostrando seus músculos do braço.


Se He-man era bravo, musculoso e cheio de lições morais, Johnny Bravo deixou bravura no nome, arrumou músculos desproporcionais e “dane-se” as lições de moral. A animação satirizava um homem adulto moderno que só se importa com a aparência, é mulherengo e que tem uma mentalidade de criança. Johnny Bravo personificava a expressão “malhar o corpo, e esquecer da mente”, pois era o extremo da vaidade, do orgulho e da falta de noção, apresentando a típica masculinidade frágil (aparecendo aqui pela primeira vez tão nítida) à medida que a vida o frustrava com situações relacionadas a sua aparência ou relacionamento. Ele tinha atitudes absolutamente controversas com as mulheres quando tentava arrumar uma namorada.

 

Professor Utônio - As Meninas Superpoderosas (ainda na década de 90)

Criador: Craig McCracken

 

imagem com fundo vermelho, mostra ao centro o Professor Utônio. Ele segura com a mão direita uma rosa, e com a esquerda ele segura uma carta. Seu semblante é de dúvida.

A live-action das irmãs mais poderosas do mundo está chegando, e vamos aproveitar para admirar o amável e inteligente pai delas: Professor Utônio. Aqui, ele nos apresentava que a masculinidade tem aspectos maternais também, mostrando o pai das meninas assumindo papéis de um lar sem a presença feminina, e da forma mais natural possível. Ele não era só um cientista ousado, mas também era um homem carinhoso, cuidadoso e sempre rigoroso quando precisava ser para educar as meninas. A animação nos trouxe um cenário maravilhoso sobre o afeto na masculinidade, quando mostrava Utônio abraçando as meninas, fazendo bolo ou sendo salvo por elas. Além de mostrar que o fato do Utônio conseguir educá-las respeitando a feminilidade de cada uma, pois as três apresentavam personalidades muito distintas.

 

Ele - As meninas Superpoderosas (década de 90 fez tudo!)

Criador: Craig McCracken

 

Imagem com fundo azul cor do céu e nuvens. No centro, apresenta-se a personagem Ele, que tem um sorriso maléfico, mostrando suas garras.

Sem dúvida, a primeira vez que vi o vilão demoníaco na TV marcou a minha vida. Ele (como é chamado, pois seu nome verdadeiro causa medo no coração dos homens) é um icônico vilão vermelho, com botas de cano alto, maquiagem vívida e garras no lugar das mãos. Ao longo de suas participações, Ele se apresenta fortemente afeminado em todas suas ações. Uma curiosidade pertinente é que ele é baseado nos Blue Meanies (citados acima) e no próprio diabo da Bíblia. Não sabemos qual foi a real intenção por de trás de sua criação, mas é interessante pensarmos que Ele tenha performado uma masculinidade tão desconstruída em um desenho infantil.

 

Super-Choque (Entramos nos anos 2000)

Criadores: Dwayne McDuffie, Denys Cowan. Michael Davis e Derek Dingle

A imagem tem uma borda colorida, e no centro uma cena do desenho Cuper-Choque, onde o super-herói sobrevoa a cidade usando sua prancha eletromagnética.


Virgil Hawkins chegou para o público no Brasil pela emissora SBT, e conquistou um público que até hoje aguarda seu retorno, seja numa continuação da série animada, seja em um live-action. Virgil é um garoto do subúrbio de Dakota, e apresenta uma imagem mais próxima de muitos garotos que assistiam a animação na TV. Ele tinha que lidar com conflitos da juventude, e conflitos sociais, como bullying e violência na escola, por exemplo. Ao longo de seus episódios, Virgil e seu melhor amigo, Richie, lidam com muitos aspectos relacionados à construção da masculinidade na sociedade, sempre ligado a como isso influencia nossas relações sociais. A figura masculina dos pais dos dois também é muito importante, pois enquanto que o pai de Virgil é acolhedor e amável, o pai de Richie é ríspido e abusivo. Vemos aqui a masculinidade sendo construída pelo viés da formação de caráter de dois jovens periféricos.

 

Hora de Aventura (2010 chegou mudando muito!)

Criador: Pendleton Ward

 

A imagem tem uma borda laranja, e no centro uma cena onde aparece os personagens principais da animação correndo aleatoriamente com os braços erguidos.

A aventura vai começar, todos juntos vamos visitar… O mundo de Jack e seu amigo Finn… Aqui somos apresentados a um mundo totalmente fantástico e desafiador. As figuras masculinas são cheias de complexidades e nada taxativas, todos marcados por algum trauma, uma perda e uma motivação específica. Desde o cão Jack até o cruel Rei Gelado, a masculinidade é trabalhada como fragmentada e inconstante. É tão bom ver personagens masculinos se apresentando de formas tão diversas e livres. O fato da Terra de Ooo ser o que restou de um mundo pós-apocalíptico nos chama a atenção por essa busca por novos moldes do que é ser masculino, servindo bem um público totalmente novo que quer mais aventuras, e menos finais fechados.

 

O Incrível Mundo de Gumball (2011 desconstruindo padrões)

Criador: Ben Bocquelet

 

A imagem tem uma borda azul, e no centro temos uma foto da turma da escola de Gumball e Darwin. Todos estão sorrindo.

Assim como Hora de Aventura, O Incrível Mundo de Gumball chega bagunçando os estereótipos de masculinidade atrelados ao que é ser filho, pai, marido, professor, chefe, policial… Tem muitas performances diversas do que é ser masculino na fictícia cidade Elmore. A animação acompanha o dia-a-dia da família Watterson, que tenta viver bem socialmente, mas sempre se depara com questões familiares modernas. Gumball e Darwin nos apresentam muitas questões do que é ser masculino na escola, seja em como ser um aluno, atleta, irmão, amigo, e quais características pertencem a cada performance. Gumball é cheio de conflitos existenciais e tenta resolvê-los, Darwin é carinhoso e emotivo. Temos o pai Richard Watterson que é preguiçoso e comilão, além de ser desajeitado. Em muitos episódios é questionado sua postura como homem da família, e sempre ao fim do episódio é mostrado que está tudo bem sermos do jeito que somos.

 

Steven Universe (2013 trouxe um olhar feminino para o masculino)

Criadora: Rebecca Sugar

 

A imagem tem uma borda pontilhada preto e branco, no centro temos uma foto de Steven com as Crystal Gems. Eles estão felizes e tranquilos, com os olhos fechados.

Como não se encantar por Steven e por sua amigas Crystal Gems? A animação que conquistou um público fiel ao redor do mundo traz temáticas importantíssimas para a nova geração de fãs de animação. Steven é apresentado como um garoto ainda em seu processo de autoaprendizagem, e isso é incrível! Durante os episódios é mostrado que sua criação é livre e permite que ele use e abuse de sua imaginação, podendo se entender como pessoa. Ele que é empolgado, criativo, corajoso, também demonstra medos, inseguranças, erros… E tudo bem! A masculinidade de Steven é desenvolvida em um ambiente saudável rodeado de mulheres, onde ele pode questionar tudo. Uma bela reflexão sobre como temos educado e orientado nossas crianças de agora.

 

Ficou bem grandão esta lista, certo? E ainda tem muito personagem antigo e atual que podemos adicionar a esta lista, sendo bons ou péssimos exemplos do que é masculinidade. Independente de como você assume sua masculinidade, acho importante terminar esta matéria afirmando que a masculinidade é pessoal e precisa ser sempre respeitada, não importa como se apresenta.

 

E você lembra de algum personagem que pode vim a participar desta lista? Fala pra gente.


Créditos

Texto: Lucas Lorran

Revisão: Lucas Lorran, Júlia Capuano

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