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» » » » » » » Jardim das Palavras: Uma obra de arte em menos de 60 minutos.


Franco Wolff 25.6.21

imagem retangular em animação detalhada mostrando um grande jardim com uma construção em arquitetura tradicional japonesa cercada por árvores. Próximo da câmera, está um homem e uma mulher parados debaixo de um pequeno telheiro coberto de plantas enquanto observam a construção.


Makoto Shinkai é um gênio da animação conhecido pelo longa “Kimi No Na Wa”, ou “Your Name”, sendo este o seu título mais famoso e que, curiosamente, não carrega uma das principais características dos roteiros do diretor: um final agridoce.

Talvez “agridoce” não seja a palavra adequada, mas sim algo extremamente amargo com uma pitada de açúcar. Caso não tenha notado: sim, esse texto irá conter spoilers. Mas pode se tranquilizar pois irei sinalizar para quem estiver lendo.

“Jardim das Palavras”, ou “Kotonoha no Niwa”, é um filme de animação com duração de 46 minutos com direito a um epílogo durante os créditos. Lançou em 2013 no Japão e foi escrito e dirigido por Makoto Shinkai. Ele conta a história de Takao Akizuki, um estudante de 15 anos com uma paixão peculiar por desenhar e produzir sapatos. Enquanto Takao ignora as aulas para desenhar no Jardim Nacional Shinjuku Gyoen nas manhãs chuvosas, Yukari Yukino, uma misteriosa mulher de 27 anos, mata o tempo no mesmo local para evitar o trabalho devido a problemas pessoais. A convivência silenciosa acaba fazendo com que os dois comecem a se abrir um para o outro e, a partir daí, um afeto começa a se manifestar.

O filme usa diversos elementos para simbolizar os temas tratados. A chuva, a poesia, o jardim e até mesmo a trilha sonora. Makoto Shinkai diz que a diferença de idade entre os protagonistas serve para mostrar o quão desajeitadas e desconexas as pessoas maduras podem ser ao serem comparadas aos adolescentes.

Uma curiosidade: Yukino aparece em “Your Name” e é uma professora de literatura.

Fica aqui um alerta de SPOILER. A partir daqui é por sua conta e risco.

Takao e Yukino se encontram por acaso no jardim em uma manhã chuvosa, como já foi dito antes. Yukino percebe o símbolo da escola no uniforme de Takao e se despede do garoto com um tanka, uma forma de poesia japonesa. Takao busca o significado do poema e os dois continuam a se encontrar no jardim durante as manhãs chuvosas sem nunca se apresentar um para o outro. A chuva traz uma sensação de conforto nas cenas, que se intensifica com a trilha sonora cujo piano é predominante e a ligação entre as teclas do piano e as gotas de chuva só aumenta a imersão.

Yukino demonstra interesse nos desenhos de Takao, o que faz com que o rapaz decida criar um par de sapatos para a moça. Conforme a estação das chuvas chega ao fim, o garoto acaba se concentrando no trabalho e para de ir ao parque.

Takao volta para a escola e se depara com Yukino. Ele fica sabendo que ela é uma professora de literatura e que correm fofocas sobre a moça pela escola. Takao se encontra com Yukino no parque com a resposta ao tanka. Uma chuva surpreende os dois e, encharcados, vão até o apartamento da professora. Lá, eles passam a tarde juntos e Takao revela seu amor por Yukino que, sensata, lembra o garoto de que ela é uma professora e, além disso, é muito mais velha.

É importante apontar que Yukino é uma personagem que sofre depressão. Ela não se alimenta direito, só ingerindo chocolates e cervejas. Além disso, ela passa horas no telefone com seu ex-namorado que a recebe bem e demonstra preocupação, apesar de ter seguido sua vida e estar com outra pessoa. Porém, para Yukino, esse contato funciona como uma âncora e, pouco a pouco, a vemos criar um laço com Takao, se tornando outra âncora para a mulher. Yukino tenta explicar para o garoto os motivos de não poderem ficar juntos, mas Takao sai do apartamento correndo. Yukino corre atrás do garoto, descalça, e eles se encontram na escada e se abraçam. Takao briga com a professora por ser uma pessoa fechada enquanto Yukino tenta fazer com que o garoto entenda.

É isso mesmo, os dois não ficam juntos nessa história. E isso é uma característica das histórias de Makoto Shinkai, tendo “Your Name” como uma fuga da regra. O quão problemático seria se a história terminasse com um casal sendo formado? Um adolescente e uma mulher adulta. Um dos maiores acertos de Shinkai em “Jardim das Palavras” é justamente esse final amargo que não poderia, de forma alguma, ser doce. Takao segue seu sonho de se tornar um designer de sapatos e Yukino retoma a carreira como professora.

Depois dos créditos, o garoto encontra uma carta da professora no banco do jardim, onde deixa o par de sapatos que prometeu e diz para si mesmo que irá encontra-la após conquistar seu sonho. Aqui, Takao faz o que se espera de um adolescente, uma promessa que ele não sabe se poderá cumprir.

O Jardim das Palavras é um filme intimista, com uma narrativa leve e, de certa forma, parada. Bem como deve ser. Ele não tem pressa para mostrar os acontecimentos, não desenrola cenas para chamar atenção. Em vez disso, Shinkai brinca com ângulos de câmera, com cenas de silêncio e com um aproveitamento de sons gigantesco. As personagens de Yukino e Takao são carismáticas e, depois de assistir, o espectador sente até mesmo uma pequena saudade da interação dos dois.

É uma história delicada não apenas com seus temas, seu traço ou trilha sonora, mas na forma de trazer seus acontecimentos. Como a maioria das obras de Makoto Shinkai, é uma história sobre vidas que se encontram e que, em algum momento, se desencontram. É uma história sobre pessoas passando nas vidas umas das outras, mas que não ficam. 


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