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» » » » » » » Josee, o tigre e o peixe: Uma conversa sobre capacitismo, sonhos e depressão.


Franco Wolff 26.6.21

Imagem da cena de uma animação japonesa mostrando uma garota de cabelos claros, levemente ruivos, na altura do ombro e bem volumosos, de costas para a câmera. Ela está sentada em algo fora do campo de visão, olhando para baixo onde está um rapaz de cabelos pretos e lisos, branco. Ele está olhando para ela e ambos estão na frente da bancada de uma cozinha dentro de uma casa.

Baseado no romance “Joze to Tora to Sakana-tachi” da autora Seiko Tanabe, “Josee, o tigre e o peixe” é um longa em animação japonesa lançado em 2020, dirigido por Kotaro Tamura, escrito por Sayaka Kuwamura e produzido pelo estúdio Bones, conhecido por lançamentos como “Fullmetal Alchemist”, “Tokyo Magnitude 8.0” e “Wolf’s Rain”.

O filme conta a história de Tsuneo, um estudante universitário que trabalha em uma loja de mergulho enquanto tenta conseguir uma bolsa de estudos no México, e Josee, uma garota que usa cadeira de rodas e raramente sai de casa por conta da preocupação de sua avó, com quem vive. Os dois se encontram quando a cadeira de Josee desce uma ladeira descontroladamente. Tsuneo a ajuda e eles retorna até a casa de Josee, onde o rapaz é contratado pela avó da garota para auxiliá-la em casa enquanto a avó está ausente.

A qualidade da animação chama a atenção e as cenas duram o tempo certo para passar o que precisa ser passado sem que seja demorado ou corrido. As personagens são carismáticas e, mesmo aquelas que não têm algum desenvolvimento, são cativantes. O filme também conta com uma trilha sonora leve e perfeita para a história que está sendo contada. 

Aqui fica um alerta de SPOILER, então leia por sua conta e risco.

A princípio, Tsuneo e Josee não se dão muito bem. A garota é rabugenta e mandona, além de passar a maior parte do tempo trancada em seu quarto sem falar com Tsuneo, que não tem permissão para entrar no quarto de Josee. Tsuneo chega a reclamar da garota para os colegas de trabalho, na loja de mergulho, mas acaba se afeiçoando aos poucos, conforme os dois convivem e compartilham sonhos e aprendem um sobre o outro. 

Em certo ponto do filme, Josee foge de casa durante a tarde e, quando Tsuneo a encontra, ela “ordena” que seu ajudante a leve para ver o mar. Lá ela compartilha um pouco de si mesma com o garoto, dizendo que nunca sentiu o sabor do mar e, quando pequena, perdeu a oportunidade de entrar no mar junto com seu pai, já falecido. Tsuneo a carrega até a beira e os dois têm um primeiro momento de afeto genuíno. Ainda nessa parte, presenciamos alguns momentos que mostram como a sociedade não é acessível e, em alguns casos, as pessoas podem ser cruéis com pessoas com qualquer tipo de deficiência. Ao mesmo tempo, o filme mostra que Josee não precisa de ajuda por conta da cadeira de rodas, e sim por nunca ter a oportunidade de interagir com o mundo graças ao tratamento que sua avó lhe dá. A avó de Josee é capacitista, mesmo que suas intenções sejam boas.

Josee e Tsuneo arranjam tempo para fugir durante a tarde sem que a avó da menina perceba. Eles vão ao cinema, frequentam parques e, em certo ponto, chegam a uma livraria onde Josee faz amizade com a atendente. As duas conversam sobre uma série de livros e, depois, Josee acaba lendo uma história para um grupo de crianças. Nesse ponto, Josee começa a perceber que o mundo não é tão cruel quanto sua avó diz ser. Tsuneo a leva para conhecer o aquário, onde ele dá uma pequena palestra sobre peixes e conta de seu sonho de ver um peixe específico do México nadando em cardume. 

O primeiro ponto de virada do filme se dá quando a avó de Josee morre. Tsuneo consegue a bolsa de estudos, mas evita contar para Josee, que descobre pelos colegas de trabalho do garoto. Eles acabam se encontrando na orla do mar e, na volta, Tsuneo acaba sendo atropelado. Josee passa a noite na sala de espera e Tsuneo faz uma cirurgia na perna. Ele fica abalado ao saber que talvez não possa voltar a mergulhar.

Vendo Tsuneo ficar cada vez mais deprimido e desistindo de seu sonho, Josee acaba encontrando a própria força para encontrar seu sonho adormecido de ser uma artista. Ela faz um livro ilustrado sobre uma sereia e um rapaz com asas e lê para um grupo de crianças na livraria. Tsuneo assistiu a leitura pois um de seus colegas o levou até lá a pedido de Josee e, a partir daí, ele decide não abandonar seu sonho.

Josee aprende sobre si mesma ao se ver em Tsuneo. Ela viu a Josee rabugenta e desanimada quando Tsuneo estava no hospital, deprimido e sem esperança. A garota encontrou a própria força e deixou que Tsuneo se apoiasse nela.

Tsuneo convida Joseepara buscá-lo no dia em que receberia alta do hospital, mas a garota não vai. Ele tenta ligar e ela não atende. Depois de visitar a casa da garota e ela não estar lá, Tsuneo junta os colegas de trabalho e até mesmo a atendente da livraria para buscar pela cidade. Eles se encontram em um momento como aquele em que se conheceram, de uma forma bem clichê, e ele se declara para ela. Eles se beijam, mas Josee se preocupa com o fato do garoto ir para o México. Ele diz que ainda quer ir, mas que até lá ele quer ficar com ela. 

Esse é um acerto do filme: Tsuneo não desiste do seu sonho. Ele se despede de Josee e vai para o méxico. Durante os créditos, o garoto aparece fazendo amigos e trabalhando por lá, enquanto Josee continua sua vida. Os dois trocam mensagens de texto e, em uma cena pós créditos, ele a surpreende encontrando-a em um parque onde passearam juntos. Ele estava de volta durante as férias.

Todo o enredo do filme é simples. Ele não tem momentos grandiosos, mas pequenos momentos que nos fazem sorrir, chorar, enfim, se emocionar. “Josee, o tigre e o peixe” fala sobre a importância da independência e de não desistir dos próprios sonhos. Além disso, ele parece mostrar que talvez a vida não seja feita de coisas grandiosas, mas de pequenos momentos especiais para quem os vive.


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