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» » » » » » » » » [Artigo] Round 6 e The Purge - Individualismo, Coletivismo e a Banalidade do Mal


Felipe Cavalcante 25.10.21

Imagem de capa: os agentes do Squid Game, com macacões vermelhos e capuz e máscaras pretas com círculos brancos e um dos participantes da Noite de Crime com uma máscara  e fantasia do Tio Sam, um terno azul com detalhes brancos listrados de vermelhos e erguendo uma metralhadora com a bandeira dos EUA pintada nela e várias outras pessoas com máscaras de presidentes ou da Estátua de Liberdade e armas.

A série Round 6 da Netflix se tornou o assunto mais comentado do momento ao trazer uma trama de conceito simples, mas engajador, cenas chocantes de violência e temas como a desigualdade, o desespero e o capitalismo. 

Contudo, essa não é a primeira vez que esse tipo de temática é trazida para o grande público e apesar de terem abordagens diferentes e serem de formas mídias diferentes, a série de filmes Noite de Crime, produzidas pela produtora americana Blummhouse também traz algumas reflexões sobre a violência, a luta de classes e a banalização do mal. 


ATENÇÃO! Esse artigo conterá SPOILERS dos filmes da série 'Noite de Crime' e da série 'Round 6' da Netflix. Leia com atenção. 

Imagem: os assassinos de Noite de Crime, todos armados com armas, martelos e facas em uniformes de colégios americanos e máscaras com rostos sorridentes sem olhos.


O primeiro filme da série Uma Noite de Crime (2013) conta a história de um futuro em que o governo norte-americano permite que assassinatos e outros crimes sejam cometidos legalmente durante 12 horas em um único dia do ano com o suposto intuito de permitir que todos os cidadãos "libertem seus impulsos violentos", garantindo a paz nos outros dias do ano. 

Neste contexto a família de um vendedor de sistemas de segurança que prospera graças à Noite do Crime aceita abrigar um homem ferido que estava sendo perseguido por um grupo de mascarados que agora exigem o retorno do seu alvo e prometem entrar e matar a todos.

A primeira coisa que podemos notar no filme é a maneira como personagens protagonistas do primeiro filme são o arquétipo da família americana de classe média alta, perfeita e completamente normal e o roteiro decide explorar algumas questões com esses personagens e em como eles agem ao serem confrontados com o lado de fora da Noite de Crime. 

O quão longe você iria para ajudar um estranho? Você colocaria em risco a sua família para ajudar alguém em perigo mortal? 


Mas o que parece mais interessante é que esse tipo de questão não surge para esses personagens até eles serem confrontados com elas, ou seja, até um estranho em perigo surgir em sua porta. A família Sadin não se preocupa com o sofrimento de outras pessoas até que isso se torne o seu problema que é o conceito básico de privilégio. 

A ideia americana de proteger a sua terra, a sua família e o que é seu consegue ser muito nobre e compreensível, especialmente dentro do contexto distópico da série de filmes, mas ao mesmo tempo os isenta de sequer pensarem em outras pessoas que estão literalmente morrendo na Noite de Crime

A possibilidade de comprar proteção necessária para sobreviver a Noite de Crime dá a quem tem condições financeiras uma experiência completamente diferente da mesma noite que uma pessoa comum teria e um crime hediondo que seria punível acaba sendo permitido apenas a quem tem dinheiro na prática. 


Imagem: uma das participantes de Uma Noite de Crime, uma garota com uma pistola dourada em um vestido sem alça com uma enorme máscara branca com dentes pontudos, olhos fechados e a frase Kiss Me riscada em batom rosa na testa.


No contexto dos filmes vemos um retrato da obsessão americana com liberdade individual e do senso americano de individualismo. O único dia em que alguém pode cometer todos os crimes que quiser existe nessa máxima e que pode muito bem servir de paralelo nas leis de posse de arma americanas. 

Os filmes da série The Purge trazem um cenário onde surge o questionamento de quando ter a posse de uma arma de fogo em sua casa se torna necessária como proteção, mas ao mesmo tempo torna esse cenário bem irônico, pois quando o próprio governo americano permite a Noite de Crime, (nem um pouco) inadvertidamente cria as condições necessárias para que alguém precise de um arma. 

Ou pior, para que qualquer pessoa que possui uma arma possa matar indiscriminadamente uma vez por ano e sem consequências. 


Imagem: um dos participantes da Noite de Crime com uma máscara  e fantasia do Tio Sam, um terno azul com detalhes brancos listrados de vermelhos e erguendo uma metralhadora com a bandeira dos EUA pintada nela e várias outras pessoas com máscaras de presidentes ou da Estátua de Liberdade e armas.


O personagem James de Ethan Hawke, mesmo sendo um bom pai e alguém que deseja proteger a sua família consegue sua renda e privilégios ao se alimentar do medo suburbano da violência e vender os equipamentos de segurança para a Noite de Crime. Ironicamente são os seus próprios vizinhos que revoltam-se contra os preços dos equipamentos e sentem inveja do sucesso dele e planejam matá-lo ao final do filme. 

Os subúrbios americanos carregam um longo histórico de segregação em relação aos menos afortunados e pessoas não-brancas, e o primeiro filme de The Purge traz essa imagem com o estranho que é trazido para dentro da casa da família Sadin e que é um homem negro. 

Os próprios filmes seguintes começam a apontar que as pessoas que participam da Noite de Crime, em sua arrasadora maioria, não são as pessoas de baixa renda, mas sim aqueles que desejam matar indiscriminadamente. 

A maioria dos participantes da Noite do Crime são os supremacistas brancos, aqueles que conseguem ter acesso a armas, "turistas assassinos" e os alvos são aqueles que não podem se proteger. Os alvos são aqueles que não podem ligar para a polícia para pedir ajuda, não porque os fios foram cortados, mas porque mesmo nos dias comuns, a ajuda não virá. 

No final a franquia de Noite de Crime retrata uma sociedade em que aqueles que possuem mais dinheiro conseguem expurgar aqueles que estão por baixo através das formas mais violentas possíveis e sair impunes disso. 


"A Noite de Crime é sobre uma coisa: dinheiro. Quem morre essa noite? Os pobres".


Imagem: cena da série Round 6 na qual vemos os participantes em uniformes verdes de esporte e tênis brancos em fila e os agentes mascarados do jogo vestidos com macacão vermelho, capuz e uma máscara preta com um círculo, triângulo ou quadrado e carregando uma metralhadora nas mãos.

A série sul-coreana Round 6 (Squid Game, no original) da Netflix trabalha com temas de desigualdade e a banalização da violência de maneira diferente. 

A trama gira em torno de um grupo de pessoas que estão financeiramente quebradas e aceitam uma oferta de competir entre si em uma série de jogos infantis em um lugar desconhecido para conseguir o grande prêmio de ₩ 45.6 bilhões, porém descobre que os perdedores de cada jogo ao serem eliminados também perdem a vida. 


Imagem: o personagem Seong, interpretado por Lee Jung-jae, um homem sul-coreano com cabelos pretos e olhos castanho-escuros em um uniforme verde com listras brancas nos dormitórios dos jogos.

O personagem foco da série Seong Gi-hun, interpretado pelo ator Lee Jung-jae, um motorista divorciado e viciado em jogo que luta para manter a filha financeiramente acaba participando do jogo mortal para tentar pagar suas inúmeras dívidas e manter a custódia de sua filha, que está prestes a ir embora para os Estados Unidos. 

Os momentos mais triunfais da série acontecem quando os personagens agem em coletivo e trabalham juntos para sobreviver. O próprio primeiro episódio já traz essa dinâmica quando Seong é salvo por Ali (Anupam Tripathi) no primeiro jogo e a mensagem é carregada até a última cena da primeira temporada, em que o próprio Seong decide que irá participar dos jogos mais uma vez e acabar com ele de dentro para fora


Imagem: os VIPs, vários homens em ternos pretos com máscaras douradas de animais como touros, leões e tigres em um quarto de paredes escuras e bem luxuoso.


Até mesmo o episódio mais pesado emocionalmente acontece quando a vitória individual dos personagens é a única opção e todos estão competindo com uma única pessoa, sendo colocados um contra o outro. É nesse momento em que o peso das mortes torna-se ainda mais real e quando temos a revelação final de que o jogo foi concebido por um grupo de super-ricos que estavam apenas entediados, então percebemos a verdadeira banalidade do mal. 

Alguém pode dizer que ninguém obrigou nenhum dos participantes a continuar no jogo, mas ao mesmo tempo, nenhum deles pode dizer que tem outra opção. 

Além disso existe um motivo maior para aqueles que participam da Noite de Crime, assim como os super-ricos e a equipe dos jogos de Round 6, usarem sempre máscaras. 

Mesmo estando acima das convenções normais, mesmo com todo o poder de facilmente escapar das consequências que a sua violência acarretaria, em ambos os casos, aqueles que detém o poder de pagar para carregar armas, para se proteger ou para se divertir às custas de gente pobre, ainda assim precisam afastar-se de suas vítimas, se desumanizar e usam isso através de máscaras. 


Afinal, alguém que não é humano, mas apenas um assassino atrás de uma máscara não tem nada a temer. 


Créditos

Texto: Felipe Lima

Revisão: Felipe Lima

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